O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) define, nesta quarta-feira, a taxa básica de juros, a Selic. A maioria dos analistas, segundo a pesquisa Focus, acredita que o BC colocará ligeiramente o pé no freio: a previsão é de queda de 1 ponto percentual - menor, portanto, que o corte anunciado na última reunião, de 1,5 ponto, e que levou os juros básicos a 11,25% ao ano.

A explicação para a redução da dose estaria em uma "certa melhora" nos indicadores econômicos. Os analistas acreditam que o BC esteja vendo "sinais de recuperação" na economia.

Um deles é no consumo. Em fevereiro, as vendas no varejo aumentaram 1,5% em relação a janeiro, resultado que ficou acima das expectativas do mercado.

"Os últimos dados mostram que a demanda ainda pode ser incrementada no Brasil. As vendas não deverão cair", diz a economista Lilian Fujiy, da Banif Investimentos, que mudou sua aposta de 1,5 para 1 ponto percentual de corte na taxa de juros.

O crédito a empresas e a produção industrial também mostraram uma leve melhora, de acordo com os últimos dados divulgados. Além disso, alguns analistas avaliam que o BC não quer deixar espaço para a volta da inflação quando a crise passar e, assim, ter de voltar a aumentar os juros. Já o economista André Perfeito, da Gradual Investimentos, diz que os sinais de melhora são "muito pontuais" e que as más notícias ainda prevalecem. "Se houve melhora é porque os dados dos meses anteriores já estavam muito ruins", diz Perfeito. Segundo ele, o perigo da desaceleração econômica é "muito maior" do que a inflação. O aumento do desemprego é apontado como um dos principais indicadores negativos no Brasil. De acordo com o IBGE, a taxa está em 9%, a maior desde 2007. Além disso, a indústria ainda está com estoques sobrando e a produção aumentou apenas "pontualmente" no mês de março.

A BBC Brasil explica as principais questões que devem influenciar na decisão do Copom:

Consumo

Segundo o IBGE, as vendas no varejo cresceram 1,5% no mês de fevereiro em relação ao mês anterior. O número ainda é modesto, mas, ainda assim, foi visto com otimismo por analistas. "Foi o segundo mês seguido de aumento. Ou seja, tudo indica que esse trimestre será melhor do que o anterior", diz a economista Lilian Fujiy, da Banif Investimentos. Em dezembro passado, as vendas no comércio varejista haviam caído 0,6%.

A mudança fez com que a Banif Investimentos revisasse sua previsão sobre o corte de juros de 1,5 para 1 ponto percentual. Segundo a economista da Banif, a redução do imposto sobre carros, eletrodomésticos e eletrônicos contribuiu para o melhor desempenho das vendas. O consumo costuma ser analisado com lupa pelo Banco Central. Se houver uma avaliação de que as pessoas voltaram a comprar, a autoridade monetária tenderá a reduzir o ritmo de corte dos juros.

Crédito

Os números do Banco Central mostram que o crédito para empresas está próximo ao patamar pré-crise. Em março, a média diária para esse tipo de financiamento foi de R$ 7 bilhões. Em setembro, antes do estouro da crise, o volume era de R$ 7,3 bilhões. O número, porém, tem algumas ressalvas. Uma delas, segundo o próprio BC, é de que a concessão de crédito ainda está concentrada em bancos públicos. Além disso, a inadimplência - tanto de empresas como de pessoas físicas - continua subindo, fechando março com índices de 2,6% e 8,3% respectivamente. Os números são considerados altos para o padrão histórico. O Copom terá de avaliar, portanto, se é preciso uma redução mais forte nos juros para estimular o consumo e aliviar a inadimplência, ou se a retomada gradual do crédito para empresas pode ser vista como sinal recuperação, reduzindo a necessidade de um corte maior nos juros.

Indústria

Em fevereiro, a produção industrial cresceu em 9 de 14 capitais analisadas pelo IBGE. A média nacional foi 1,8% maior do que em janeiro.O resultado, de acordo com o instituto, ainda não permite falar em retomada. Isso porque a expansão industrial foi "pontual", puxada principalmente pela produção de veículos no Estado da Bahia.

Com estoques sobrando, a indústrias tendem a reduzir o ritmo de produção. De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), as empresas trabalham com 77% de sua capacidade, mesmo nível registrado em 2003."Por esses e outros motivos ainda é prematuro falar em uma retomada consistente", diz o economista André Perfeito, da Gradual Investimentos.

"Mantemos nossa avaliação de que há espaço para um corte maior na Selic", diz Perfeito, que aposta em uma redução de 1,5 ponto nos juros.

Emprego e renda

Outro indicador que deverá entrar na análise do Copom é o desemprego. Os dados mais recentes do IBGE, relativos a março, mostram que a desocupação chegou a 9% no país, o maior nível desde agosto de 2007.

É a terceira alta consecutiva registrada pelo instituto. Com isso, o número de desocupados chega a 2,1 milhões de pessoas. O número ficou acima das expectativas da consultoria LCA. Mas a empresa avalia que a massa salarial ainda está próxima à média de 2006, o que "compensa" o aumento no desemprego.

Inflação

Principal preocupação da autoridade monetária, a inflação caiu no mês de março. O IPCA, referência para as metas do governo, fechou o mês em 0,20%. Em fevereiro, o índice foi de 0,55%.

No acumulado de 12 meses, a inflação está em 5,90%. De acordo com os analistas, o BC estará olhando não apenas para a inflação atual, mas também para os próximos meses e até anos. Ao tentar "ler a mente" dos diretores do Banco Central, alguns analistas acreditam que o BC ainda está preocupado com a inflação - não tanto com os indicadores do momento, mas com a possibilidade de volta da inflação quando a crise passar.

Essa é a avaliação, por exemplo, da Banif Investimentos. "As medidas de incentivo ao consumo, adotadas pelo governo, ainda vão incentivar a demanda", diz Lilian Fujiy. Já André Perfeito acredita que o agravamento da crise ainda não permite pensar em inflação nesse momento. "Se a inflação voltar depois, o governo pode aumentar os juros. A Selic existe para isso", diz o economista.

Crescimento

Em última instância, o que o governo quer é fazer a economia crescer, sem gerar inflação. No entanto, as expectativas de crescimento do PIB brasileiro apontam para uma retração esse ano.Os analistas de mercado que respondem à pesquisa Focus apostam em um PIB de -0,39% em 2009. O Fundo Monetário Internacional (FMI) tem uma análise ainda mais negativa para a economia brasileira. Pelos cálculos do Fundo, o PIB do país deverá cair 1,3% este ano."A gente ainda tem mais incertezas do que clarezas no que diz respeito à crise mundial", diz Perfeito.

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