BC decide juros em meio a dilema entre inflação e recessão

Em sua segunda reunião após o estouro da crise, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) encontra-se diante de um dilema: decidir se o problema mais grave para o país está na inflação ou na recessão. O balanço desses dois problemas é que vai definir o rumo da taxa de juros no país.

BBC Brasil |

Enquanto a inflação em alta exige taxas de juros mais elevadas, a recessão pede uma dose menor. A decisão será divulgada nesta quarta-feira.

Na última reunião, em outubro, a grande dificuldade da autoridade monetária foi a instabilidade e a falta de clareza no cenário internacional. Naquela situação, o BC achou melhor não mexer na taxa de juros, atualmente em 13,75%.

Segundo os economistas, a situação agora está um pouco mais clara - mas para pior. Já se sabe, por exemplo, que as economias ricas, como Estados Unidos e Grã-Bretanha, já estão em recessão.

No Brasil, o contágio veio mais rápido do que o esperado. Nas últimas semanas, uma série de indicadores negativos surpreenderam o mercado. Algumas consultorias, como a LCA, já falam em recessão técnica (dois trimestres consecutivos de queda no PIB) no primeiro trimestre de 2009.

A produção industrial recuou 1,7% em outubro, segundo o IBGE. Os que mais sofreram foram os setores de bens duráveis, como veículos e eletrodomésticos, cuja produção caiu 4,7%. As vendas de automóveis caíram 25% em novembro, em relação ao mês anterior.

O fluxo comercial brasileiro com o resto do mundo também diminuiu em novembro. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, houve queda tanto nas exportações (-12,3%), quanto nas importações (-16,5%).

Inflação
Por outro lado, a inflação no Brasil ainda está acima do centro da meta. O IPCA de novembro subiu menos do que o esperado, mas o índice anual chega a 6,39%, enquanto a meta do governo é de 4,5%.

O dólar, que na última reunião aparecia como uma das principais ameaças inflacionárias, continua em alta. Na semana passada, chegou a R$ 2,50.

Para o economista Antônio Licha, do Instituto de Economia da UFRJ, apesar dos dados negativos, ainda não há motivos contundentes para uma redução dos juros no Brasil.

"O Banco Central olha basicamente a expectativa sobre a inflação e as pesquisas ainda apontam um índice acima do centro da meta em 2009", diz o professor.

Segundo Licha, apesar de alguns setores da economia já estarem sentindo o impacto da crise, ainda é cedo para o BC observar uma tendência.

De acordo com a pesquisa Focus, do Banco Central, a maioria dos analistas prevê que a Selic não será alterada nesta reunião.

A economista Lilian Fujiy, da Banif Investimentos, é um deles. Segundo ela, o fato de o BC não subir a taxa já é um indicativo de que a autoridade monetária está preocupada com a recessão.

"Pela cautela que o BC vem demonstrando, manter a taxa de juros será um sinal de preocupação com a recessão", diz.

Redução
Para o professor da UFRJ, já está certo que a crise afetará o crescimento brasileiro em 2009. O que o BC precisa decidir é o "pior problema" no momento: a inflação ou a recessão.

"Minha opinião é de que a inflação continua no foco", diz Licha.

Segundo ele, apesar do impacto da crise em alguns setores, ainda existe um descompasso entre oferta e demanda, o que pressiona os preços para cima.

"O ajuste desse desequilíbrio começou apenas em outubro. Esse é um processo que pode levar até seis meses". Só então o BC teria espaço para reduzir os juros, diz.

Já o professor da FGV-Rio, André Nassif, acha que o BC brasileiro deveria ser "mais agressivo e cortar a taxa".

Segundo ele, a queda do preço das commodities, sobretudo do petróleo, compensa a valorização do dólar, abrindo caminho para a redução dos juros.

"Infelizmente o BC brasileiro tem uma postura conservadora, o que provavelmente levará a uma manutenção dos juros", diz.

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