Venezuela muda regras do câmbio para segurar disparada do dólar

O Banco Central da Venezuela (BCV) implementará a partir de hoje um novo sistema para combater a especulação com a moeda americana

BBC Brasil |

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O Banco Central da Venezuela (BCV) implementará a partir desta quarta-feira um novo sistema de compra e venda de dólares para combater a especulação e a disparada do mercado paralelo da moeda americana no país.

O preço do dólar neste novo mercado oscilará dentro de diferentes faixas, que devem ser anunciadas apenas na abertura dos mercados nesta quarta-feira, e estará vinculado aos preços dos títulos da dívida do país, quinto exportador mundial de petróleo.

O presidente do BCV, Nelson Merentes, disse nesta terça-feira que a demanda "não especulativa" de dólares para esta nova plataforma de câmbio - que se soma a duas outras já reguladas pelo governo - oscila entre US$ 5 bilhões a US$ 6 bilhões por ano.

O novo sistema de câmbio substituirá o mercado alternativo do dólar, fechado pelo governo há três semanas, depois que o dólar paralelo alcançou a máxima histórica de 8,2 bolívares (cerca de R$ 3,5) por dólar.

A disparada levou o governo a intervir e declarar ilegais transações feitas por casas de câmbio que operavam no mercado paralelo.

Com a nova medida, o Banco Central substituirá os agentes financeiros que antes faziam as transações de compra e venda de dólares.

Agora, as pequenas entidades financeiras e bancos regulamentados pelo governo terão de pedir ao BCV para comprar bônus e títulos da dívida, que, em seguida, são convertidos em dólares no exterior.

Controle

"O que antes vinha ocorrendo de maneira espontânea, agora será regulamentado pelo Banco Central, que determinará o preço de negociação do dólar e dirá quem pode vender os bônus", disse à BBC Brasil o economista Andrés Santeliz, professor da Universidade Central da Venezuela.

Desde janeiro, a Venezuela possui duas taxas de câmbio: a primeira destinada à importação de bens de primeira necessidade, de 2,6 bolívares por dólar, e outra de 4,3 bolívares por dólar, para o restante das transações.

A procura pelo chamado "dólar permuta", ou paralelo, existente desde a entrada em vigor do controle de câmbio, em 2003, passou a aumentar quando empresas importadoras e correntistas passaram a ter dificuldades para receber aprovação do governo para a compra da moeda estrangeira.

O mercado de importações correspondente a 70% do consumo interno do país.

Inflação

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, chegou a acusar essas entidades financeiras de incrementar artificialmente o preço do dólar e de lavagem de dólares provenientes do tráfico de drogas.

Segundo o presidente venezuelano, o novo mecanismo cambial servirá para "golpear" a especulação no mercado financeiro interno, fator que para o governo seria um dos responsáveis pela alta inflação. O governo aposta que a nova medida poderá contribuir para a queda da inflação, que registra um acumulado de 14,2% nos últimos cinco meses.

"Esse sistema tem que eliminar a perturbação e especialmente a especulação", afirmou o presidente do BCV. "Isso poderá reduzir alguns pontos da inflação", disse Nelson Merentes. Para o economista Andrés Santeliz, no entanto, o diagnóstico do governo em relação à inflação é "equivocado". "A medida amortecerá o problema por um tempo, mas não ataca o problema de fundo", afirmou. Para ele, a busca pela moeda estrangeira se deve à disparada da inflação e à perda paulatina do poder aquisitivo dos venezuelanos.

Na avaliação de Santeliz, a inflação se deve ao déficit de produtos e o aumento do consumo e não à especulação em torno ao dólar paralelo. "O dólar permuta pode ter algum impacto, mas não é o fator determinante. Para conter a inflação, é preciso incrementar a produção de bens de consumo", afirmou.

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