Um mês após terremoto 700 mil desabrigados enfrentam chuvas

O Haiti mal enfrenta uma batalha contra a natureza e outra já aparece no horizonte. Dentro de poucas semanas, no final de março ou em abril, começa a estação das chuvas.

BBC Brasil |

Cerca de 700 mil pessoas estão vivendo a céu aberto, em abrigos improvisados.

Os mais afortunados encontraram telhados de metal velhos e enferrujados. Outros se amontoam sob lençóis amarrados entre paus.

Organizações beneficentes dizem que abrigo é um grande desafio.

Esta semana havia uma amostra do que se pode esperar.

Às 5 horas da manhã, enquanto crianças, mães e pais dormiam sua 29ª noite sob as estrelas, caiu um temporal.

Uma enxurrada veio pelas ruas e campos, e a chuva pingava por pedaços de papelão e lençóis que até agora davam alguma proteção aos desabrigados.

Na metade da manhã, o sol secou tudo mas quando a chuva vier e cai por horas e semanas sem parar, a capital, Porto Príncipe, será transformada em um gigantesco lamaçal.

Achar uma solução para o problema é uma tarefa difícil e os problemas logísticos são imensos.

O Haiti não precisa apenas ser reconstruído. Ele precisa ser reerguido a partir do nada.

As organizações de ajuda humanitária admitem que é duro saber por onde começar.

Quando o histórico tsunami atingiu a Ásia há cinco anos, os esforços de recuperação foram ajudados pelo fato de que os desabrigados estavam espalhados.

Mas em Porto Príncipe eles estão concentrados em uma área urbana. Há pouco espaço para construir novas habitações.

Dejetos humanos
Porto Príncipe é uma cidade de odores - e nenhum deles particularmente agradável.

Perto do rio o fedor é insuportável.

O mau cheiro produzido por corpos em decomposição foi substituído por um odor de dejetos humanos.

Um porco encosta o focinho na água, em busca de alimentos.

Crianças e adultos passam, alguns descalços, pisando nos excrementos na margem do rio.

O rio é um enorme banheiro público. Ao lado ficam abrigos improvisados e que estão transformando a cidade em uma grande favela.

O representante americano indicado pelo presidente Barack Obama para supervisionar a missão humanitária no Haiti, embaixador Lewis Lucke, disse que os problemas imediatos foram resolvidos.

"Não há crise de alimentos e nem de água", disse.

Segundo Lucke, a assistência médica veio em grande quantidade.

Este é um bom começo, mas ninguém está iludido aqui. O caminho à frente para este país frágil é perigoso.

Sob o sol tropical, uma mãe segura o filho com firmeza. Ele grita. Uma agulha penetra em seu braço - a vacina contra sarampo.

Estima-se que quatro em cada cinco crianças são suscetíveis à doença.

A Cruz Vermelha começou um programa maciço de vacinação, sob a direção do Ministério da Saúde do Haiti.

"Centenas de milhares estão vivendo em condições precárias. Há um risco cada vez maior de doenças contagiosas", disse um médico.

Os prédios que foram destruídos pelo terremoto eram estruturas vulneráveis mas tinham saneamento básico, banheiros e pias, canos.

As favelas que aparecem não têm nada. As vielas sujas são estreitas e cheias de gente.

Um mês depois do terremoto, há uma questão-chave. Agora que a situação de emergência acabou, agora que os sobreviventes foram tirados dos escombros, agora que a maioria dos feridos recebe o tratamento necessário, agora que alimentos e água estão entrando pelo porto, o que acontece a seguir?
É uma questão premente.

Durante décadas, o Haiti vem dependendo de dinheiro e ajuda externos.

Estima-se que 60% do orçamento governamental venha de ajuda externa.

A maioria dos haitianos sobrevive com o dinheiro enviado por parentes que vivem no exterior.

Seria relativamente fácil, com o dinheiro levantado, reconstruir o palácio presidencial, os ministérios, La Grande Rue - o centro comercial do Haiti.

São todas coisas importantes a fazer. Elas serão as bases do novo Haiti.

Mas como criar uma nova cidade, e país, que possa se sustentar no longo prazo?
Como disse Lucke, "tanto da 'porcelana' quebrou neste país que há oportunidade para se recompor tudo de uma forma diferente e, melhor".

Mas só através de um compromisso da comunidade internacional que seja sustentável, de anos, isto vai acontecer.

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