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Um líder indígena bem na foto

O repórter da BBC Brasil Pablo Uchoa saiu de Londres para passar três dias com a tribo dos Suruí, os donos da reserva Sete de Setembro, na divisa de Rondônia com o Mato Grosso. A viagem faz parte da série Superpotência que investiga o impacto da internet.

BBC Brasil |

Em um projeto pioneiro, os indígenas estão usando a internet como meio de auto-afirmação cultural e política, e de ativismo contra o desmatamento da Amazônia, que ameaça a integridade das suas terras.

Acompanhe o diário.

Dia 3: Um líder indígena 'bem na foto'
"Sua câmera é bem pequeninha. Tenho medo dessas coisas assim."
Almir, o líder dos Suruí, me observa de lá fazendo cara de desconfiança. Posicionei-o para nossa entrevista a alguns metros de distância, o que no plano fechado da minha lente cria um agradável efeito de fundo, e no plano aberto mostra a grama verdinha e uma maloca indígena típica dos Suruí.

Sei que sua declaração é só charme. Ora, se há um povo indígena que percebeu muito bem a utilidade desses pequenos "gadgets" e faz uso deles de maneira pioneira e criativa, esse povo se chama Suruí. Mostrar isso não é justamente o propósito da minha visita aqui?
"Imagine", respondo. "Nisso sei que quem dá aula são vocês."
Almir me recebeu na sede de sua associação, Metareilá, em Cacoal, com uma apresentação de Powerpoint feita sob medida para o interlocutor que o escuta pela primeira vez. De um laptop pequeninho, que fez o meu trombolho passar vergonha, ele projetou as imagens do desmatamento ao redor da reserva indígena Sete de Setembro na parede de sua sala.

Internet, Picasa, Google Earth, todas essas são ferramentas de que ouvi falar uma porção de vezes conversando sobre os projetos dos Suruí.

E o xodó deles já nem é mais o computador ou o laptop, e sim os telefones que tiram fotos e enviam por internet. Um carregamento desses deve chegar em breve e permitir aos indígenas postar fotos do desmatamento na internet em tempo real, poupando o tempo do download e do envio.

Os Suruí não são os únicos nem os primeiros a utilizar a tecnologia moderna em seu benefício. Há seis anos, editei um programa de TV sobre os Kamayurá, que vivem no Xingu, e entre os diversos personagens havia um que era cinegrafista e contava como essa tecnologia vinha ajudando os indígenas a registrar suas tradições orais.

O que diferencia os Suruí é a maneira criativa e pioneira, para repetir minhas próprias palavras, de integrar estas tecnologias a um plano de desenvolvimento sustentável de longo prazo.

Algo que tem sido creditado à visão de longo alcance de Almir. Curiosamente, o clã dele é responsável, entre o povo Suruí, por tratar dos assuntos ligados à guerra, à diplomacia e ao meio-ambiente. Ao 'trocar o arco-e-flecha pelo laptop', ele revolucionou os três campos de uma só vez.

Demonstrou um notável talento político, e se o leitor me perdoa a ousadia, inclusive certa qualidade de estadista. E lá nas prateleiras da Associação Metareilá estão reportagens e reportagens, a grande maioria publicadas em jornais estrangeiros, sobre Almir e a luta ambiental dos Suruí. Inclusive uma edição da revista "Época" que o coloca entre os cem brasileiros mais influentes do país.

No fim de nossa entrevista, para efeito de "making of", Fred, da ONG ACT Brasil, nos sugere que tiremos uma foto conjunta.

"Se até o Príncipe Charles tirou uma foto com o Almir, eu também quero", disse Fred, referindo-se a uma imagem de Almir com o príncipe herdeiro britânico exposta na sala do líder indígena.

Almir, que por acaso deve ter sabido de minhas andanças pelo mundo cobrindo as viagens de outro lider, o presidente Luís Inácio Lula da Silva, não perdeu a piada.

"Então vamos. Se até o Lula tira foto com o Pablo, então eu também quero."
Sei, sei. Pode ter sido só brincadeira, mas a comparação com Lula me deixou com a pulga atrás da orelha. E me diverti pensando que pode ter sido apenas um deslize da modéstia de Almir, tentando esconder ambições maiores.

Dia 2: Na floresta verde, tapete vermelho para os convidados
Continuando viagem a aldeia dos Suruí, em Rondônia, desde muito cedo botei o pé na estrada - e quanta estrada.

Por um desses mal-entendidos de roteiro, fui pego de surpresa ao desembarcar em Porto Velho, após uma conexão em Brasília, e descobrir que ainda estava a sete ou oito horas de viagem de carro até a cidade de Cacoal, que servirá de base para as gravações com os indígenas.

A BR 364 corta a paisagem verde passando por cima de rios e do lago criado pelas águas da hidrelétrica de Samuel, que gera parte da energia de Porto Velho. É uma paisagem encantadora, mas igualmente triste para quem é capaz de decodificar os rastros da ação do homem sobre o meio ambiente.

Onde antes era floresta, troncos de árvores mortas hoje espetam para fora do lago formado pela represa, formando os chamados "paliteiros".

Ao largo das frondosas áreas de plantio de soja e arroz e de pastagem por onde a estrada passa, aparecem solitárias, aqui e ali, as palmeiras de babaçu, que acabam sendo deixadas de pé porque resistem aos dentes das serras elétricas.

"Quarenta etnias indígenas desapareceram por conta da construção dessa estrada", frisou a porta-voz da associação indígena Kanindé, Ivaneide Bandeira Cardozo- ela que, junto com o representante da ONG Equipe de Conservação da Amazônia (ACT Brasil) Frederico Schlottfeldt, forma a agradável companhia neste estirão de asfalto.

"Foi construída com financiamento do Banco Mundial e foi a única vez em que o banco pediu desculpas publicamente por uma obra que custeou", prossegue Ivaneide.

Vencemos os 450 quilômetros até Cacoal e tocamos, no sentido geográfico e simbólico, o coração da realidade desta terra.

Conversamos sobre movimento indígena e as diferentes culturas indígenas, conflitos fundiários, grilagem e desmatamento, mecanismos de desenvolvimento limpo e programas de reflorestamento e sequestro de carbono. E muito mais.

Questões que os Suruí estão ajudando a expor para o mundo com ajuda de tecnologia de ponta. É um permanente diálogo entre dois mundos.

Aqui e ali, Ivaneide pontua a conversa contando as "aventuras" dos Suruí no mundo dos "brancos", como ela diz. Do estupor de alguns membros da etnia diante das brancas paisagens dos alpes suíços a uma prazerosa xícara de chá com o príncipe Charles em Londres. Uma intensa de viagens internacionais para angariar apoio às suas causas.

Mas são assuntos para outros posts. Deixemos de lado o mundo dos brancos, por ora. Nos próximos dias, os anfitriões são eles; eu e o leitor, os convidados.

Dia 1: Mudando conceitos
Virou lugar comum dizer que o poder da internet não conhece limites. Mas pense de novo - será? Será que a rede mundial de computadores chega nos grotões da África, nas áreas mais remotas da gélida Rússia, nos bolsões de pobreza da Amazônia brasileira?
Essa, aposto, é de fazer titubear. Porque a gente sabe, embora na maior parte do tempo nem se lembre, que a internet não vem num passe de mágica. Depende de computadores, conexões, sinais e, tão importante quanto tudo isso, educação digital. E essas condições não existem em qualquer lugar do mundo...

Este blog vai acompanhar a história de um povo indígena que tem conseguido vencer todas essas adversidades e se plugar, sim, no mundo virtual.

A tribo começou disponibilizando no Google Earth, o programa de mapas da gigante Google, um "mapa cultural" que conta a história dessa nação indígena que permaneceu incontactada até quase os anos 1970.

Se você for no YouTube, pode ver de como o projeto começou. O próximo passo, dizem os Suruí, é usar programas de compartilhamento de fotos, como o Picasa, para denunciar a perda de florestas ao redor da reserva indígena. Segundo eles mesmos, a tribo está "trocando o arco flecha pelo laptop" para impulsionar sua luta social e ambiental.

Não posso esperar para saber mais sobre como vencer desafios para criar um mundo verdadeiramente conectado, e avaliar o efeito da tecnologia moderna no dia-a-dia em um povo que também se orgulha de manter suas tradições.

A gigante de informática Google é parceira do projeto, e em uma escala em São Paulo eu conversei com o gerente de produtos da empresa, Marcelo Quintella, que foi um dos que estiveram lá na reserva Sete de Setembro para dar treinamento aos índios.

"Selecionamos 20 pessoas para receber treinamento de internet. Metade nunca tinha mexido em um "mouse". Mas, dos outros dez, uns cinco sabiam usar o computador - não eram usuários diários de internet mas sabiam - e outros cinco tinham até email e (perfil no) Orkut", disse Marcelo. Pelo visto, prepare-se para mudar os seus conceitos nos próximos dias.

E aliás: a internet também chega, sim, a grotões da África e partes remotas da Rússia. Basta acompanhar a série Superpotência, que a BBC põe no ar a partir desta semana, para conhecer as histórias por trás de cada uma das reportagens enviadas pelos nossos repórteres.

Se preferir, também pode fazer o contrário: ver como ocupantes de um edifício na Coréia do Sul, o país mais conectado do mundo, se viram sem conexão nenhuma.

Histórias que fazem pensar, talvez não seja a internet que não conhece limites. É que o desejo humano de transformar dramaticamente esse mundo, de abolir as fronteiras do acesso à informação e ao conhecimento é que é incontível.

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