Sean foi 'blindado' para não falar com família brasileira, diz avó

Silvana Bianchi diz que após último contato, em junho, neto ficou inacessível; menino embarcou para os EUA com o pai há um ano

BBC Brasil |

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Desde que Sean Goldman embarcou para os EUA com o pai americano, um ano atrás, a família brasileira diz que conseguiu apenas cerca de três trocas de e-mails com o menino e cinco telefonemas. Após um último contato por telefone em junho, a avó, Silvana Bianchi, afirma que o neto está inacessível.

Júlia Dias Carneiro/BBC Brasil
A avô brasileira de Sean, Silvana Bianchi
"O Sean ficou blindado. Ele não tem celular, não tem e-mail, não tem nada. Ou, se tem, nós não temos conhecimento de nada, porque é tudo tão vigiado que ele não pode se comunicar conosco", diz Silvana. "Na escola ele é vigiado o tempo inteiro, dentro de casa ele é vigiado o tempo inteiro", acrescenta a avó de Sean, que recebeu a BBC Brasil em seu apartamento no Jardim Botânico, na Zona Sul do Rio.

Padrasto do menino, o advogado João Paulo Lins e Silva diz que a família anseia por notícias e está entregue à especulação. "A gente não sabe se ele está gordo, se está magro, se está limpo, de banho tomado. Se dizem que ele está bem adaptado, por que não mostram?", questiona.

De acordo com Lins e Silva, não existe uma determinação judicial nos Estados Unidos que obrigue o pai a fazer contato com a família brasileira. "Mas o problema é que não conseguimos fazer contato com ele. O telefone que tínhamos, o David (Goldman, pai do menino) trocou. O celular, ele não atende", diz o padrasto. "Ninguém quer ser invasivo, mas o mínimo que gostaríamos é uma notícia."

Disputa judicial

Agora com dez anos, Sean é filho de David Goldman e de Bruna Bianchi, que, em 2004, trouxe o menino para o Brasil e depois se divorciou do americano. Em 2008, ela morreu de complicações pós-parto após o nascimento de Chiara, filha de seu novo casamento com João Paulo.

Após uma batalha judicial que mobilizou os governos do Brasil e dos Estados Unidos, uma decisão do Supremo Tribunal Federal determinou que Sean fosse entregue ao pai na véspera do Natal passado. A família materna luta para chegar a um acordo que permita visitas e contatos com o menino, que hoje mora nos Estado americano de Nova Jersey com David. "Mas até agora não conseguimos nem um acordo para falar por telefone", diz Silvana.

Na última terça-feira, um dos advogados dos avós, Carlos Nicodemos, recebeu a notícia de que o Departamento de Justiça dos Estados Unidos não iria intervir para permitir uma visita consular a Sean, como a família brasileira havia solicitado.

Roteiro

Em uma das cinco conversas que conta ter tido com o neto ao longo do último ano, Silvana afirma que teve de falar inglês e seguir um roteiro passado por David por e-mail. "Eu tinha de perguntar se ele estava indo bem na escola e não podia falar da irmã, que passa pelo quarto dele e pergunta por ele", diz a avó. "O Sean tem uma irmã uterina com quem teve contato durante um ano e meio, mas agora simplesmente tenta-se apagar isso da cabeça dele."

Silvana afirma ter enviado agora em dezembro dois cartões de Natal registrados para Sean. João Paulo diz que mandou um computador para o menino logo após sua ida para os Estados Unidos e outros presentes ao longo do ano. "Não sabemos se nada disso chegou", diz o advogado.

Na sala ampla do apartamento no Jardim Botânico, com fotos de Sean em uma das estantes e do casamento de Bruna e João Paulo em outra, Silvana diz que a família vai continuar batalhando pelo direito de ver o neto.

Ex-chef de um restaurante italiano no Rio, ela diz que só vai conseguir retomar sua vida depois que o episódio "se resolver" - o que, para ela, representa concluir as ações ainda em andamento no Brasil e chegar a um acordo para restabelecer o contato com o neto.

"Por mais que tentem apagar a memória dele, por mais que queiram que ele só fale inglês e esqueça a língua materna, tenho certeza de que ele vai nos ter dentro do coração a vida toda", afirma Silvana. "Isso nunca ninguém vai arrancar dele, embora seja uma violência tentar."

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