Rússia é chamada de 'Estado mafioso' em documento vazado pelo WikiLeaks

Em mensagens, diplomatas dos EUA dizem que corrupção assola polícia e governo e especulam sobre ligação de Putin com a máfia

BBC Brasil |

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A Rússia se tornou praticamente um "Estado mafioso", assolado por casos de corrupção e redes de extorsão, afirmam documentos diplomáticos secretos dos EUA, vazados nesta quinta-feira pelo site WikiLeaks. Os documentos revelam ainda que diplomatas americanos suspeitavam do envolvimento do premiê Vladimir Putin com a máfia russa.

Na série de documentos vazada nesta quinta-feira pelo jornal britânico "The Guardian" está um comunicado da embaixada dos EUA em Madri. A mensagem enviada a Washington revela que, em janeiro de 2010, o promotor espanhol Jose "Pepe" Grinda González afirmou que Rússia, Bielorrússia e Chechênia haviam se tornado na prática "Estados mafiosos", onde "não se pode diferenciar atividades do governo e de grupos de OC (sigla em inglês para crime organizado)".

AP
Putin é visto durante entrevista transmitida na quarta-feira pela CNN
Grinda diz ainda ter informações de que alguns partidos políticos russos operam "de mãos dadas" com o crime organizado. Ele afirma também que o aparato do governo em Moscou - em particular serviços de segurança - tinham ligações próximas com a máfia. O promotor é conhecido por ter liderado uma longa investigação sobre o crime organizado na Espanha, que levou a mais de 60 prisões.

Putin

Outro documento fala sobre "a pergunta sem resposta" sobre o quanto Putin estaria envolvido com a Máfia, e o quanto ele controlaria as ações do crime organizado russo. Entre as mensagens diplomáticas vazadas está ainda um relatório do embaixador americano na Rússia John Beyrle sobre a corrupção em Moscou.

"Elementos criminosos se beneficiam de uma krysha (rede de proteção e extorsão) que permeia a polícia, o serviço de segurança federal, o ministério do interior e o escritório da procuradoria, assim como na burocracia do governo da cidade de Moscou", diz Beyrle.

Em outra mensagem, enviada em fevereiro deste ano, o secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, diz que "a democracia russa desapareceu". O premiê russo respondeu a essa afirmação em entrevista à CNN na quarta-feira, dizendo que Gates estava "profundamente equivocado".

Ex-espião

O promotor espanhol afirma também que o ex-espião russo Alexander Litvninenko, morto por envenenamento em Londres em 2006, acreditava que o serviço de Inteligência russo controlava o crime organizado no país - hipótese que Grinda corrobora.

De acordo com os documentos, Washington dizia que eram grandes as possibilidade de Putin ter sido informado sobre a operação para assassinar Litvinenko em Londres. O Kremlin nega qualquer envolvimento.

O WikiLeaks também divulgou uma mensagem enviada aos EUA pela embaixada americana em Kiev, Ucrânia, em dezembro de 2008, que revela que um empresário ucraniano com ligações com a estatal russa Gazprom afirmou ao embaixador dos EUA ter ligações com o crime organizado. Ele disse que precisava de apoio de um mafioso chamado Semyon Mogilevich para abrir um negócio. Forças de segurança dos EUA e da Europa acreditam que Mogilevich seja o "chefe dos chefes" da maior parte dos grupos mafiosos russos.

Na quarta-feira, os EUA nomearam um especialista em operações antiterrorismo para lidar com os estragos causados pelos vazamentos do WikiLeaks. Russel Travers tentará descobrir como milhares de documentos secretos foram retirados de arquivos eletrônicos do governo. A Casa Branca disse ainda que está tomando medidas para aumentar a segurança da rede de computadores dos EUA.

O WikiLeaks divulgou até agora 505 dos 251.287 mensagens diplomáticas dos EUA que diz ter obtido. As mensagens foram enviadas antecipadamente a cinco jornais, entre eles o americano "The New York Times" e o britânico "Guardian". Os EUA condenaram o vazamento como um "ataque à comunidade mundial".

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