Rede de blogs vira referência da oposição na Rússia

Ativismo na internet faz com que opositores se unam para protestar e debater rumos da política do país, que vai às urnas domingo

BBC Brasil |

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Enquanto a Rússia se prepara para eleger um novo presidente neste final de semana, os eleitores parecem estar empolgados com a votação como poucas vezes nos últimos dez anos.

Em parte, isso se deve a uma revolução pela internet que desafiou o poder do Estado de controlar a opinião pública - e à plataforma de blogs LiveJournal.

Um mês antes da eleição, um grupo liberal de oposição realizou uma proeza atrevida, ao pendurar uma enorme faixa contra o primeiro-ministro russo e candidato a presidente, Vladimir Putin, próximo ao Kremlin. A faixa mostrava uma cruz sobre o rosto do premiê, com a inscrição: "Putin, saia".

AP
Em Moscou, ativista protesta contra Putin, provável vencedor da disputa presidencial deste fim de semana
A faixa foi removida apressadamente, mas fotos da ação chegaram a milhões de russos por meio do blog de Ilya Yashin, líder do grupo e integrante de um pequeno exército de ativistas de oposição que atualmente divulga suas opiniões pela blogosfera russa.

Em um país com uma TV rigidamente controlada e poucos jornais e rádios independentes, a internet é um espaço vital para se expressar opiniões alternativas. Quase tudo isso aparece na plataforma de blogs LiveJournal, conhecido em russo como Zhivoy Zhurnal, ou simplesmente ZheZhe.

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Criado pelo desenvolvedor americano Brad Fitzpatrick em 1998, como uma maneira de se comunicar on-line com seus amigos, o LiveJournal - junto de seu mascote, "Frank, a Cabra" - pode parecer, à primeira vista, um meio estranho para esta nova vibração política da Rússia.

Mas os russos tomaram o LiveJournal para si, transformando o que, no Ocidente é hoje considerada uma plataforma relativamente obscura e um tanto datada, em uma massa enorme e agitada de ira política, de prosa viva e de debate inteligente.

Brincadeira

Tudo começou por acidente. Roman Leibov, um professor de literatura eslava na Universidade de Tartu, na Estônia, e primeiro russo a escrever no LiveJournal, diz que chegou à plataforma por meio de um link em um fórum online, em 2001.

"Primeira tentativa de escrever. Vamos tentar em russo... que engraçado", foi a sua primeira publicação.
"Eu gostei (do LiveJournal) porque havia uma demanda por algo do tipo por muito tempo", disse ele à BBC. "Me envolvi com ele rapidamente e comecei a mostrá-lo ativamente aos meus amigos."

O pesquisador russo Eugene Gorny, especialista em blogosfera e outro adepto de primeira hora do LiveJournal, dois meses depois de Leibov, diz que eles estavam na verdade somente brincando. "Na época, não nos víamos como pioneiros, nós somente estávamos nos divertindo", afirma.

Mesmo neste estágio inicial, havia uma diferença entre as partes americana e russa do LiveJournal, com os americanos usando a plataforma principalmente para manter diários, em vez de usar a interação.

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Os russos, por sua vez, estavam criando uma comunidade. Para eles, a plataforma funcionava mais como uma rede social. "Eles começaram a mostrar (o LiveJournal) a seus amigos, e então o núcleo parecia com uma comunidade online inicial", disse Leibov. "Ele foi genuinamente o primeiro nesse meio de diários e redes sociais simultâneos." "Os recém-chegados geralmente começam como leitores de outros blogs, mas logo começam a escrever eles mesmos", acrescentou.

Novos donos

ZheZhe logo se tornou um brinquedo de um grupo de elite de profissionais russos de internet. Muitos deles eram jornalistas que divulgavam a plataforma e a levavam a um público leitor ainda mais amplo - o que parecia suprir uma necessidade básica na sociedade russa.

"Se não tivesse sido o ZheZhe, teria sido outra coisa", observou Oleg Kashin, repórter do jornal Kommersant, que também blogou no LiveJournal por dez anos.

Ele se tornou o que Gorny define como "o endereço mais na moda da internet", e até mesmo um termo genérico para "blog" em russo. Em meados da primeira década do século, 44% dos russos usavam o LiveJournal.

Analistas veem uma série de razões para o sucesso do LiveJournal na Rússia - entre eles, o fato de seus servidores estarem nos Estados Unidos, evitando a pressão do governo russo sobre a mídia privada, ou então sua afinidade com a mentalidade russa, que valoriza amizades e redes informais.

Em 2006, no entanto, a fé de muitos russos no LiveJournal foi abalada. As páginas em russo foram licenciadas para a empresa russa de mídia SUP, fundada pelo empresário americano Andrew Paulson e pelo banqueiro russo Alexander Mamut, tido como muito próximo do Kremlin. Pouco mais de um ano depois, a SUP comprou o LiveJournal.

Essa foi a maior aquisição russa de uma empresa de internet americana, com relatos na mídia afirmando que a SUP pagou cerca de US$ 30 milhões por ela.

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Os blogueiros responderam com revolta, insinuando que o governo russo estava tentando derrubar o LiveJournal antes das eleições presidenciais de março de 2008. "Havia uma onda de medo", disse John Kelly, um dos autores de um artigo feito em 2010 na Universidade de Harvard sobre a blogosfera russa. "Havia muita especulação na época de que todos iriam migrar para outras plataformas, o que não ocorreu."

Além disso, os novos donos do LiveJournal viram uma oportunidade de negócio, em um mercado de internet que aumentava rapidamente na Rússia. Aparentemente não havia intenção de conter as paixões dos blogueiros.

E, mesmo que quisessem, eles não poderiam, diz Anton Nossik, diretor de mídia da SUP e antigo blogueiro do LiveJournal. A plataforma é hospedada em uma empresa separada, com sede na Califórnia, criada depois da aquisição. "Se um blog tem uma hospedagem russa, a polícia pode checar o blogueiro", disse Nossik. Mas se alguém tem um blog no LiveJournal, as autoridades russas não têm como chegar a eles, a não ser buscando informações da empresa em Sacramento. "A resposta típica da Califórnia é: "não, não podemos'."

Concorrência

Com a década chegando ao fim, o LiveJournal não era mais o único brinquedo da praça. Ele enfrentou a rivalidade de outras plataformas, como o LiveInternet, e, talvez de forma mais importante, dos sites de relacionamento - tanto o próprio Facebook quanto o vKontakte, um site russo muito parecido com o Facebook.

O especialista e consultor independente de internet Anton Merkurov não vê isso, no entanto, como uma concorrência direta. "(O LiveJournal) não é uma rede social da mesma forma como o Facebook", disse. "O LiveInternet pode ser popular como o LiveJournal, mas ele é para um público muito jovem."

Ele acrescentou que há cerca de dez blogs com influência na mídia, e a maior parte deles estão no ZheZhe. Uma pesquisa indica que 93% dos blogs relacionados à eleição ativos nos últimos seis meses estão no LiveJournal.

Blogueiros de dentro do espectro político chegaram ao LiveJournal para divulgar suas mensagens. Em abril de 2011, o presidente Dmitry Medvedev abriu seu próprio blog, que pode ser acessado tanto a partir do site do Kremlin quando do LiveJournal.

"Se você não está no ZheZhe, não há garantia de que as pessoas vão ler o que você escreve", contou Gorny. "É um lugar onde é fácil se conectar com as pessoas."

Mas para o establishment russo, o mundo informal, selvagem e incontrolável do ZheZhe pode ser uma faca de dois gumes, no qual as autoridades ficam vulneráveis às ciladas.

O presidente da Duma (Câmara Baixa do Parlamento) Boris Gryzlov estreou na blogosfera em outubro de 2009. "Saudações, respeitáveis blogueiros e leitores do meu diário", começava sua mensagem, um tanto pomposa. Imediatamente, ele foi comparado pelos usuários aos velhos integrantes do regime soviético, fazendo discursos em congressos do Partido Comunista de antigamente.

"Ah, Borya, isso é a internet. Nós podemos mandar você se mandar daqui", escreveu um usuário com o apelido de "radulova".

Revolta online

Oleg Kashin se tornou famoso por seus fortes ataques aos poderosos. Então, quando ele foi espancado quase até a morte com barras de ferro em frente à sua casa, em 2010, houve uma onda imediata de revolta on-line.

Notícias do incidente se espalharam pela internet por horas, e um protesto foi rapidamente organizado no centro de Moscou. Muitos dos participantes eram usuários da internet, sem histórico de participação em manifestações de rua.

"Eu fui surpreendido pela proporção da reação", contou Kashin.

Assim, foi natural para ZheZhe se tornar um ponto focal de atividade quando, em dezembro último, as paixões políticas se inflaram durante e depois das eleições parlamentares, as quais a oposição alegou terem sido fraudadas.

Um protesto realizado em 5 de dezembro foi ignorado pela mídia tradicional, mas foi ativamente discutido na blogosfera. E quando os blogueiros Navalny e Ilya Yashin foram presos, uma transmissão ao vivo feita do lado de fora da delegacia de polícia atraiu 3,7 mil usuários no meio da noite.

Ao contrário de alguns outros países, a Rússia nunca fez nenhuma tentativa de bloquear o LiveJournal - talvez porque ele alienaria muitos usuários de internet. "Nós sabemos com base em testes técnicos (...) que a Rússia tecnicamente não filtra a internet, então eu não esperaria uma abordagem ao estilo chinês ou cazaque de controle da internet", explicou Bruce Etling, diretor do projeto Internet e Democracia no Berkman Center, em Harvard. "Parece improvável que eles comecem a fazer isso em um futuro próximo, já que os custos políticos de fazer isso são tão significativos."

Ataques virtuais

Mas alguns ataques conhecidos como DDoS (sigla em inglês para "distribuição de negação de serviço") contra o LiveJournal, assim como contra alguns veículos independentes de mídia, ocorridos em momentos delicados, indicam que alguém pode estar tentando fechar a plataforma.

Ataques ocorridos em março e abril de 2011 fizeram com que Medvedev ordenasse pessoalmente uma investigação policial contra as ações descritas como "revoltantes e ilegais". O LiveJournal foi derrubado novamente pouco antes das eleições de dezembro.

Assim, o LiveJournal pode sobreviver, ou esses ataques levarão seus usuários a outros lugares? A plataforma perdeu seu monopólio sobre os blogs russos há muito tempo, e os internautas mais jovens estão escolhendo em massa o Facebook e o vKontakte.

"É um problema, claro, porque as pessoas precisam publicar imediatamente, e se um serviço não funciona imediatamente, o usuário troca para outra janela ou navegador, para o Facebook, Twitter, ou o que for", explicou Merkurov.

Já Anton Nossik acredita que o LiveJournal vai sobreviver aos ataques, dizendo que ele tem "a melhor proteção contra DDoS no mundo", com centenas de milhares de dólares investidos em armadilhas. "Eles falharam miseravelmente ao tentar derrubar o LiveJournal no dia da eleição, na véspera e no dia seguinte", concluiu.

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