Pesquisa indica que ecstasy pode ajudar no tratamento de traumas

Droga parece colocar paciente no estado mental ideal, ajudando-o a processar o trauma sem ficar possuído pela emoção

BBC Brasil |

selo

Uma pesquisa conduzida por cientistas americanos indica que a droga ecstasy pode aumentar o sucesso da psicoterapia em pacientes que sofrem de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), perturbação psíquica que acomete pessoas que vivenciaram traumas de grande magnitude.

O pequeno estudo, anunciado em janeiro deste ano e realizado com apenas 20 pacientes, concluiu que a droga sintética, também conhecida como MDMA (3,4-metilenodioximetanfetamina), seria segura e ajudaria a melhorar os efeitos da psicoterapia.

A equipe enfatizou que mais pesquisas são necessárias para confirmar esses resultados e já obteve aprovação para um estudo maior, usando veteranos de guerra do Exército americano. Comentando a pesquisa, o especialista britânico Simon Wessely, no entanto, afirmou que é difícil tirar qualquer conclusão a partir de um estudo tão pequeno e pediu cuidado.

Experimento

Os pesquisadores americanos suspeitam que a droga – que, apesar de ilegal, é popular entre alguns grupos de jovens – ajude a reduzir o medo nos pacientes, permitindo que eles tirem maior proveito das sessões de terapia.

Em artigo publicado na revista científica Journal of Psychopharmacology, a equipe disse que os pacientes foram selecionados de acordo com critérios rigorosos: todos sofriam de TEPT há vários anos e tinham se submetido, sem sucesso, a tratamentos convencionais.

Pacientes com histórico de psicose e vícios foram excluídos. Cada participante foi submetido a duas sessões de psicoterapia com um intervalo de algumas semanas entre a primeira e segunda sessão. Cada sessão durou oito horas. Dos 20 voluntários, 12 receberam uma dose de ecstasy e oito receberam um placebo, substância neutra sem efeitos farmacológicos utilizada para controle em pesquisas. Dois meses mais tarde, 10 pacientes do grupo que tomou ecstasy (mais de 80%) apresentaram resposta positiva ao tratamento, segundo os especialistas.

Em contrapartida, apenas dois dos oito pacientes que tomaram placebo (25%) deram sinais de melhora. Segundo os pesquisadores, não houve efeitos adversos resultantes do uso da droga durante o estudo, financiado pela Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies (MAPS), uma organização sem fins lucrativos que defende o uso de entorpecentes em tratamentos médicos.

Terapia

Criado em 1914 para ser usado como moderador de apetite, o ecstasy chegou a ser utilizado por psiquiatras em várias partes do mundo como auxílio para terapias, até se tornar ilegal em vários países. O chefe do novo estudo, o psiquiatra Michael Mithoefer, afirma que, durante o tratamento para o TEPT, há uma tentativa de fazer o paciente retornar à situação que causou o trauma, o que muitas vezes dificulta a terapia. A droga poderia ajudar nestas situações. "(A terapia) não tem efeito se a pessoa for inundada por emoções que não consegue processar ou se ela está emocionalmente anestesiada".

"A MDMA parece colocar a pessoa em um estado mental perfeito para a terapia e parece ajudar o paciente a processar o trauma e não ficar possuído pela emoção".

Mithoefer disse que o próximo passo é dar início a um experimento envolvendo 40 veteranos do Exército americano, que será sucedido por outros estudos, com grupos ainda maiores de pacientes. A equipe também está monitorando pacientes para avaliar os efeitos do tratamento a longo prazo e para descobrir se ele aumenta as chances de que pacientes venham a utilizar a droga por conta própria. Até o momento, segundo Mithoefer, os resultados são encorajadores.

Cautela

Para o especialista em TEPT Simon Wessely, do King's College, de Londres, consultor em psiquiatria do Exército britânico, o modesto tamanho do estudo dificulta qualquer conclusão neste estágio. Ele também se mostra cauteloso com o uso do ecstasy em tratamentos.

"Uma vez que o uso de drogas está associado a muitos problemas mentais, incluindo TEPT, eu vou precisar de muito mais informações antes de poder recomendar (o tratamento)".

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG