Partido Comunista chinês completa 90 anos sem dar sinais de fadiga

Sistema político adotado na China não tolera diferenças de opinião e se mostra cada vez mais poderoso no país. Para alguns, partido precisa se "modernizar"

BBC Brasil |

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Reuters
Condutor de banda militar ensaia antes da cerimônia que comemora os 90 anos do Partido Comunista chinês
Na semana em que comemora seu nonagésimo aniversário, o Partido Comunista Chinês continua mais forte do que nunca, presidindo sobre uma China, como ele, cada vez mais poderosa. O domínio do PC se estende por todos os aspectos da vida na China.

A organização não tolera diferenças de opinião e mantém o controle por meio de um sistema que usa a força para suprimir os que discordam de sua linha. Para alguns, isso não pode continuar, e o partido vai ter de se transformar se quiser sobreviver. Mas a liderança parece estar atenta à necessidade de modernização constante para que possa se adaptar aos novos tempos.

Escola

Em uma área de Pequim onde, no passado, existiu uma escola eclesiástica, o Partido Comunista Chinês instalou uma instituição educacional bastante diferente. Apesar do local continuar devotado ao ensino, agora, cultua-se o partido e não Deus.

A escola integra um sistema de controle que vem mantendo o partido no comando desta gigantesca nação por quase um século. Desde 1949, o PC chinês mantém poder total, decidindo as políticas que são implementadas pelo governo. A Escola do Partido Comunista em Pequim é apenas um exemplo do controle exercido pela organização.

Reciclagem

A cada três anos, integrantes do alto escalão do partido fazem três meses de treinamento em escolas desse tipo. A ideia é assegurar que eles entendam as novas filosofias da organização. Após o curso, retornam aos seus postos e colocam em prática as novas propostas. Chu Xiaolin, vice-editora do jornal Beijing Daily, assistiu recentemente a uma palestra na escola.

"Não entendemos tudo sobre a sociedade, então a escola do partido nos põe em contato com especialistas de várias áreas", ela disse. "Eles nos dão as informações mais recentes. Isso nos permite lidar com problemas de forma mais completa". A aula a que Chu Xiaolin assistiu falava sobre os desafios ao partido criados pela internet.

Aula de liderança

Numa palestra em outra escola, membros do partido aprendem sobre Mao Tsé-Tung, o líder revolucionário mais reverenciado pelo PC chinês. Milhões de pessoas morreram sob a liderança de Mao, mas os membros do partido não estudam o líder para aprender sobre seus erros e, sim sobre seu talento político.

O professor palestrante, Liu Feng, disse que o ex-líder chinês sabia como se relacionar com o povo, algo que os membros do partido precisam saber. "Se o Partido Comunista chinês quiser governar, precisa ter legitimidade. Precisamos da aprovação e apoio das pessoas", disse o professor Liu.

Mas o partido não tem planos de buscar essa aprovação por meio de eleições democráticas, embora haja debates, entre seus líderes, sobre a necessidade de reformas. Zhou Chunming, um administrador da escola do Partido em Pequim, disse que os comunistas não precisam mudar porque a maioria da população apoia o sistema. "Democracias também têm problemas. Por que Hitler chegou ao poder na Alemanha? Por causa da democracia".

Aparentemente sem ironia, o partido anunciou, recentemente, que supervisionaria as eleições organizadas para selecionar autoridades de governos regionais. O objetivo, segundo o partido, era assegurar "eleições justas". Mas apesar de seu sucesso, o PC chinês tem pontos vulneráveis.

AP
Presidente chinês Hu Jintao discursa na celebração dos 90 anos do Partido Comunista no país

Repressão

A China vive hoje um dos momentos de maior repressão a dissidentes políticos dos últimos anos. Este é o aspecto mais sombrio do controle exercido pelo partido sobre a sociedade. Sob o comando do partido, o governo chinês gasta hoje mais dinheiro com segurança interna do que na defesa nacional, prendendo tibetanos, militantes pró-democracia e pessoas retiradas à força de suas casas para projetos de desenvolvimento - qualquer um que contrarie a lei.

Recentemente, o governo enviou a chamada Polícia Armada do Povo, que atua sob o comando do Exército chinês, para subjugar um movimento de dissidentes na Mongólia, no norte, e revoltas de trabalhadores imigrantes no sul. Isto não quer dizer que o Partido Comunista não esteja disposto a mudar.

A organização sobreviveu por tanto tempo justamente pela capacidade de adaptação. Trinta anos atrás, o PC chinês começou a adotar o capitalismo, uma transformação que resultou em uma prosperidade econômica que, provavelmente, fará da China, em meados desse século, o país mais rico do mundo.

Sidney Rittenberg, um dos poucos americanos a integrar o PC chinês, disse que a organização vai ter de mudar novamente se quiser sobreviver. "Vamos chegar a um ponto em que as pessoas não vão mais querer ter uma economia moderna de mercado convivendo com um sistema político atrasado", disse o ex-membro do PC Rittenberg, que tem 89 anos e conheceu Mao Tsé-Tung.

Sigilo

No partido, prevalece uma cultura de muito sigilo. Quem se filia promete guardar os segredos da organização. Antes de falar à BBC, um dos membros, Zhao Tong, telefonou para seu chefe no PC para ter a certeza de que não havia problemas em relação à entrevista. "Farei um relato a você depois", disse o engenheiro de softwares, com 33 anos, ao seu superior no partido. Tanto segredo torna difícil prever de que forma o partido pode se transformar no futuro.

No momento, o PC permanece firme no controle da China, e parece ter o apoio da maioria da população. Muitos dos quais ainda se lembram do caos que o país enfrentou no passado. "Para se conhecer bem a China tem que se conhecer bem o Partido Comunista", disse Ai Ping, vice-diretor do departamento internacional do partido, a jornalistas estrangeiros. Na cabeça de muitos líderes, país e partido estão, com frequência, fundidos em uma única ideia. O exagero é deliberado, mas esta é uma noção que os comunistas esperam manter por muitos anos ainda.

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