Parentes de vítimas de acidente da Air France abrem processo contra governo francês

Associação que reúne 70 famílias alemãs e chinesas pede investigação sobre responsável por não cumprimento de norma europeia

BBC Brasil |

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Parentes de vítimas do voo AF 447, que caiu sobre o Atlântico em 31 de maio de 2009 após decolar do Rio com destino a Paris, vão entrar com uma ação contra a eventual responsabilidade do governo francês no acidente, segundo anunciou nesta quinta-feira o advogado Jean-Pierre Bellecave, da associação francesa Ajuda Mútua e Solidariedade, que reúne 70 famílias.

Bellecave e o advogado alemão Ulrich von Jeinsen, que representa famílias alemãs e chinesas de vítimas do acidente, vão solicitar que a Justiça francesa oriente suas investigações "contra qualquer eventual responsável pelo não cumprimento de uma norma europeia de 2003 que determina a elaboração de um registro de incidentes aéreos", disse o advogado francês.

Segundo o advogado alemão, "em razão do não cumprimento da norma europeia, é possível que o Estado francês não tenha tido conhecimento de 30 incidentes similares envolvendo o congelamento dos sensores de velocidade em alta altitude". "Desejamos que a juíza encarregada do dossiê amplie suas investigações para determinar a responsabilidade do representante do Estado francês", disse Jeinsen.

Falhas

O Escritório de Análises e Investigações (BEA, na sigla em francês), que investiga o acidente com o voo da Air France e é subordinado ao Ministério dos Transportes da França, declarou que as falhas nos tubos de velocidade do Airbus A300-200 representam "um dos elementos, mas não a causa do acidente" com o voo AF 447.

iG São Paulo
Destroços do avião localizados pela Marinha do Brasil em 8 de junho de 2009
O advogado francês estima que, "no contexto dos fatos que contribuíram para a catástrofe", a não realização de um censo de incidentes aéreos "tem uma importância". Pilotos já haviam alertado sobre inúmeras falhas ocorridas anteriormente em outros voos com os sensores de velocidade AA, fabricados pela francesa Thales. Era esse modelo de tubo Pitot que equipava o avião da Air France que caiu sobre o Atlântico com 228 pessoas a bordo.

Em um relatório divulgado em outubro do ano passado, baseado em 47 documentos oficiais, o presidente do Sindicato dos Pilotos da Air France (Spaf, minoritário), Gérard Arnoux, afirmou que o "acidente com o voo 447 poderia ter sido evitado" se as autoridades de segurança da aviação civil, o fabricante Airbus e a Air France tivessem levado em conta os incidentes anteriores com os sensores de velocidade da Thales.

Incidentes

A Air France registrou nove incidentes graves com sensores de velocidade de aviões da Airbus entre maio de 2008 e março de 2009, que não tiveram vítimas fatais. "Esses tubos de velocidade foram concebidos com base em parâmetros de certificação obsoletos, que não levam em conta o congelamento do equipamento em alta altitude. Incidentes começaram a ocorrer desde 1990, com um pico em 2008, sobretudo na Air France", declarou Arnoux, que realizou o relatório com outro piloto, Henri Marnet-Cornus.

Segundo Arnoux, a Airbus começou a identificar problemas nos sensores de velocidade AA desde 2002. Mas somente em 2007 o construtor recomendou a instalação do novo sensor BA nos aviões A330 e A340, mais resistentes à formação de gelo em altas altitudes.

A Air France, no entanto, só decidiu equipar seus aviões com o novo sensor de velocidade em abril de 2009, e havia recebido o equipamento poucos dias antes do acidente com o voo Rio-Paris. Em agosto do ano passado, a Agência Europeia de Segurança da Aviação (AESA) proibiu a utilização dos sensores AA da Thales e determinou que pelo menos dois dos três sensores de velocidade do avião sejam da marca americana Goodrich.

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