Parentes de mineiros chilenos relatam drama da espera

Em cartas, filhos de mineiro contam como vêm superando angústia ao longo da espera pela saída do pai

BBC Brasil |

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Os familiares de alguns dos 33 mineiros que estão soterrados desde o dia 5 de agosto em uma mina no norte do Chile vêm relatando algumas das suas experiências em textos escritos para a BBC. Quatro filhos do trabalhador Omar Reygadas, de 26 anos, escrevem sobre o drama da espera do lado de fora da mina, onde eles estão acampados.

1º de setembro - Omar Reygadas Filho

Na última reunião (com as equipes de resgate), vimos um vídeo de nossos familiares recebendo a primeira refeição quente. Antes disso, eles estavam ingerindo apenas líquidos e comida de bebê. Agora eles vão receber frango, carne, sanduíche de presunto, geleia e frutas. Eles também têm música para ajudar a relaxar. Parecem bem mais animados, até mesmo os que aparentavam estar mais afetados pela situação.


A comida predileta do meu pai é frango com abacate. Ele come muito abacate. Mas ele não recebeu nada disso ainda porque sua comida precisa ser analisada por um nutricionista. Eles precisam cuidar com o que comem e estão em uma dieta especial para evitar que engordem, já que o túnel que está sendo cavado terá apenas 70 centímetros. Eles precisam estar magros e seguir uma dieta rígida.

Enquanto isso, nós esperamos. Nós esperamos que não demore demais. Nós esperamos vê-los dentro de um mês ou pouco mais, mas não em três ou quatro meses. Mas estamos felizes porque meu pai parece estar bem, e ele sempre manda mensagens de amor à família pelos vídeos. Nós esperamos poder falar com ele por telefone em breve.

Telefonemas não são frequentes porque podem fazê-los entrar em depressão e ficarem nostálgicos. Um psicólogo está avaliando a possibilidade [de se telefonar para eles] todos os dias, e nós obedecemos a sua decisão. Então, escrevemos para ele todos os dias, como o resto da família. Nós dizemos a ele que o amamos e que estamos rezando por ele. Pedimos a ele que siga com fé. Ele também quer nos ver em breve. As cartas também são lidas pelos psicólogos. Eles conferem se não estamos revelando coisas que possam afetá-los - eles não precisam de mais problemas, além dos que eles já têm.

31 de agosto - Marcela

A empresa dona da mina está recomendando que os familiares deixem o local. Eles dizem que é normal que eles sigam para casa e toquem suas vidas em frente, mas nós achamos que isso é uma decisão pessoal. Eles não podem nos obrigar a ir embora. Nós estamos acampados e planejamos ficar aqui até 18 de setembro, quando se comemora o bicentenário do Chile. Depois disso, vamos ver o que faremos.

Eles começaram a cavar o túnel e estamos aguardando a chegada de uma máquina maior. Meu pai está bem. Só meu irmão Omar que consegue falar com ele, porque as famílias precisam selecionar um integrante de cada família para falar ao telefone. Meu pai disse a ele que está se sentindo bem. Ele pediu para não nos preocuparmos, que tudo lá embaixo está dando certo, e ele não precisa de nada.

Eles não têm nenhum conforto, é claro, mas ele está tranquilo. Eles sofrem de dores musculares por dormirem no chão, mas nada que seja muito grave. Fiquei sabendo que estão enviando camas dobráveis para eles. Eles também mandaram jogos para eles, como baralhos e dominós, para que o tempo passe mais rápido. Estou preocupada porque o lugar onde eles estão é muito úmido e enlameado. Eles estão se mudando para um outro andar da mina por causa disso, e também porque a máquina que está perfurando o túnel libera muita água.

Precisam cuidar para não sofrer infecções na pele. Eles não estão se barbeando porque temem que qualquer corte pequeno possa infeccionar, e eles não receberiam atendimento médico. Um deles tem treinamento para primeiros-socorros, então ele está sob comando da situação, administrando vacinas anti-tétano nos demais. Eles são muito organizados. Os mineiros que não foram mostrados no primeiro vídeo apareceram no segundo.

Os mineiros sabem que o resgate depende do esforço das pessoas aqui de cima e lá de baixo. Elas terão que se ajudar. Eu gostaria de agradecer a todos no mundo que estão se preocupando com os mineiros. Tudo que pedimos é que as pessoas rezem por eles.

30 de agosto - Omar Reygadas Filho

Eu, minhas duas irmãs e um irmão deixamos tudo de lado para vir para cá assim que ficamos sabendo do desmoronamento. Nós dormimos em barracas no que agora está sendo chamado de Acampamento da Esperança. Nós passamos 17 dias de angústia até recebermos as boas notícias dos sobreviventes. É muito melhor porque agora sabemos quais são as condições deles lá embaixo, e podemos falar e escrever para eles.

Agora meus irmãos voltaram a trabalhar em Copiapó, que fica a 40 quilômetros da mina. Eles voltarão no fim de semana e eu vou ficar aqui. Meu chefe pediu que eu não me preocupe, porque ele entende o que estamos passando. E ele conhece meu pai.

A vida no acampamento não é difícil. Eu tento me manter ocupado. Eu varro, limpo e escrevo cartas para meu pai. Nós temos tudo que precisamos, como banheiros e fogões. As autoridades mantêm reuniões diárias, às 18h todos os dias. Eles nos contam as novidades e trazem atualizações sobre os trabalhos.

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