Palhaço brasileiro diverte crianças e idosos desalojadas por tsunami no Japão

Estrangeiros aproveitam feriado nacional para ajudar como voluntários em cidades destruídas por tremor seguido de tsunami

BBC Brasil |

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Milhares de japoneses e de estrangeiros, inclusive brasileiros, aproveitaram o feriado nacional prolongado de primavera - que começou dia 29 de abril e se estende até o próximo dia 8 - para ajudar como voluntários nas cidades destruídas pelo tsunami do dia 11 de março.

O brasileiro José Rogério de Andrade, de 40 anos, conhecido como Palhaço Pirulito, é um dos que aproveitaram a folga da fábrica de alimentos para levar um pouco de alegria para as crianças e idosos nos abrigos na província de Miyagi.

Douglas Wakimoto/Arquivo pessoal
José Rogério de Andrade, o Palhaço Pirulito, diverte japoneses

"Quando cheguei e vi toda aquela destruição minha vontade era de chorar e cheguei a pensar em desistir", contou à BBC Brasil. "Foi o trabalho mais difícil que já fiz", resumiu o artista, que faz trabalhos de recreação há dez anos.

Mas o sentimento ruim se dissipou quando encontrou o primeiro grupo de crianças e de idosos. "Eles precisavam do nosso calor humano, e saio daqui com o sentimento de ter ajudado de alguma forma. Quero agora ensinar as pessoas em outros lugares a dar mais valor à vida", disse Andrade, que fica na região até quinta-feira.

Auxílio

Segundo levantamento feito pelo jornal Yomiuri, cerca de 8 mil pessoas estavam sendo esperadas por dia nas cidades litorâneas destruídas pela onda gigante para ajudar na limpeza das casas, na preparação de comida para os desabrigados, em atividades de recreação, entre outros serviços.

A brasileira Michie Afuso, 43, também aproveitou o feriado para ajudar as vítimas do tsunami. Ela, que desde o desastre no dia 11 de março tem recolhido e enviado mantimentos aos desabrigados, resolveu levar as doações pessoalmente desta vez.

"A gente olha para a destruição toda e não acredita que a natureza foi capaz de fazer tudo aquilo, mas o que mais me impressiona é a força do povo japonês, que não desiste nunca", falou. "Quando a gente pode, temos de ajudar", lembrou.

Outros grupos de brasileiros também estão ajudando na limpeza da cidade, preparação de comida e distribuição de mantimentos. Maria Kuabara e outros quatro brasileiros foram para a cidade de Ishinomaki, província de Miyagi, e passaram o dia limpando o quintal de uma casa, tomada por toneladas de arroz que estavam armazenados numa cooperativa vizinha.

À noite iriam para a capital da província, Sendai, para se encontrar com um grupo de brasileiros. "Trouxemos ingredientes para preparar panquecas e feijão para distribuir", contou a brasileira, que volta amanhã (4) para sua cidade, Nagoya. "Atuar como voluntário dá a sensação de que estamos realmente ajudando na reconstrução do Japão", disse.

Ajuda em excesso

Os governos das três províncias mais atingidas pelo tsunami - Iwate, Miyagi e Fukushima - passaram a aceitar novos voluntários somente através de programas organizados e organizações sem fins lucrativos. As autoridades lembram que, para ajudar, o candidato precisa levar a própria barraca e comida e água suficientes para os dias em que ficar na região.

Fernando Kinoshita/Arquivo pessoal
Brasileiros ajudam na limpeza de casas em Ishinomaki, província de Miyagi

Porém, muitas comunidades pequenas estão rejeitando mais ajuda por causa do aumento do tráfego e do caos administrativo. Muitos dos municípios devastados são vilas de pescadores e pequenos agricultores, sem muita estrutura para receber e organizar grandes quantidades de voluntários.

"A necessidade de voluntários vai continuar e aumentar mesmo após o feriado. Pedimos para que participe futuramente (como voluntário), caso não possa vir agora", divulgou o governo de Miyagi através de um comunicado.

Descontentamento

O trabalho voluntário no Japão é considerado um legado do último grande terremoto que devastou a cidade de Kobe, em 1995. Na época, cerca de um milhão de pessoas ajudou na reconstrução do município, preenchendo uma lacuna deixada pela ação lenta do governo. O mesmo acontece agora.

Uma pesquisa de opinião pública feita pela agência de notícias Kyodo mostrou que 76% dos entrevistados acham que o primeiro-ministro Naoto Kan não tem demonstrado liderança em relação ao desastre natural seguido de uma crise nuclear na usina de Fukushima.

A pesquisa indicou também que 23,6% dos entrevistados querem a substituição imediata do premiê. Já o índice de aprovação ao governo Kan ficou em 26,8%.

Recontrução lenta

Enquanto o governo patina na tomada de decisões importantes, cálculos do Conselho para o Planejamento da Reconstrução do Japão revelam que a recuperação total das cidades devastadas pelo terremoto e pelo tsunami deve demorar até dez anos.

Somente a retirada dos quase 25 milhões de toneladas de entulhos deve levar três anos, segundo estimativas do Ministério do Meio Ambiente japonês. Além disto, neste mesmo tempo, seriam recuperadas estradas e construídas casas temporárias. Após esta etapa, outros quatro anos seriam necessários para reconstruir as cidades.

O terremoto seguido de tsunami do dia 11 de março matou ao menos 14 mil - outras 12 mil continuam desaparecidas -, deixou cerca de 130 mil pessoas desabrigadas e os prejuízos chegam a 300 bilhões de dólares.

Na segunda-feira, o Parlamento japonês aprovou o primeiro de uma série de orçamentos extras que serão usados na reconstrução do país. O valor do primeiro pacote é de quase US$ 50 bilhões.

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