Palco de distúrbios em 2005, Paris pode ter nova onda de violência

Assim como no Reino Unido, onda de violência tomou periferia da capital francesa com jovens pedindo reformas sociais

BBC Brasil |

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As reformas sociais propostas pelo governo francês após os distúrbios na periferia de Paris em 2005 fracassaram e a falta de opções para os jovens desfavorecidos pode servir de combustível para um novo surto de violência, segundo o consultor em prevenção urbana Yazid Kherfi

À violência que atingiu as periferias francesas em 2005, após a morte de dois jovens, seguiu-se um plano para integrar as classes desfavorecidas e os imigrantes. As políticas foram colocadas em prática pelo atual presidente francês, Nicolas Sarkozy - o mesmo que, em 2005, ocupava o Ministério do Interior e era o alvo principal da ira dos jovens da periferia.

Mas a crise financeira determinou cortes orçamentários e as políticas sociais não escaparam da tesoura governamental. "Gastaram muito dinheiro, mas se esqueceram dos jovens", disse à BBC Brasil Kherfi, que também é presidente da associação Pouvoir d'Agir, que luta para integrar à sociedade os jovens de Clichy-sous-Bois, palco dos principais tumultos.

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Bombeiros tentam apagar fogo em meio a distúrbios em Le Blanc Mesnil, no subúrbio de Paris (4/11/2005)
Segundo o consultor, o governo francês se concentrou na reforma das habitações sociais, em detrimento de políticas sérias de integração.

Panela de pressão

Uma pesquisa recente, publicada pela rádio France Bleu, mostra que 43% dos franceses acreditam que a situação nas periferias do país piorou desde os distúrbios de 2005. A opinião reflete números oficiais, que mostram que a taxa de desemprego entre os jovens chega a 40% em algumas localidades, o dobro da média nacional.

"É uma panela de pressão, com a tampa prestes a explodir", disse o sociólogo francês Jean-Marc Stébé à BBC. Autor de diversas obras sobre as periferias, ele já deu a volta ao mundo estudando o fenômeno da violência nos arredores das grandes cidades. "Os jovens estão pessimistas. Eles recebem propostas de trabalhos ruins e salários baixos. Muitos acabam se voltando para atividades melhor remuneradas, como o tráfico de drogas ou armas, o que gera mais conflitos com a polícia."

Apesar da calma relativa dos últimos anos, os especialistas alertam que risco de uma nova onda de violência opondo jovens das periferias francesas e forças policiais é real. Para que as revoltas atravessem o Canal da Mancha e voltem a tomar conta da França, "basta apenas um drama, como a morte de um jovem por policiais", garante Kherfi.

Semelhanças

O mesmo caos que reina nos bairros de Londres e na periferia da capital britânica nos últimos dias já ocorreu na França. Em novembro de 2005, a morte de dois adolescentes causou uma onda de violência que durou quase um mês e espalhou-se por todo país.

Assim como em Londres, tudo começou com uma morte acidental, envolvendo jovens desfavorecidos e a polícia. Zied Benna, de 17 anos, e Bouna Traoré, de 15 anos, morreram ao se refugiar em uma central elétrica quando fugiam da polícia em Clichy-sous-Bois, a menos de 20 quilômetros do centro de Paris.

Os dois adolescentes levaram um descarga elétrica fatal. O confronto causou estragos milionários, deixou dezenas de feridos e centenas de carros e de comércios reduzidos à cinza.

"Não houve vencedores. Depois de terem exteriorizado todo o ódio, eles decidiram parar", contou Yazid Kherfi.

Para Stébé, os manifestantes das periferias de Londres e Paris são a parte esquecida da população. "Na França, fala-se cada vez mais em gueto, mas na Inglaterra também existem zonas que, apesar de estarem no centro da cidade, são homogêneas", diz o sociólogo. "É um tipo de gueto, com pessoas originárias da imigração, que são vistas de maneira estranha pela polícia, por serem negros ou indianos."

Stebé diz ainda que as sociedades inglesa e francesa atravessam, há 20 anos, uma crise que ocorre em diversos países ocidentais, ricos e industrializados. Essa crise, segundo o especialista, é causada pelo empobrecimento das grandes potências, agravada pela atual recessão da economia mundial.

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