Novo governo da Colômbia assume com desafio de reatar laços regionais

Juan Manuel Santos toma posse nesse sábado, em meio à crise diplomática com a Venezuela

BBC Brasil |

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O presidente eleito da Colômbia, Juan Manuel Santos, assume o governo neste sábado com um índice de popularidade de 76%, em um momento em que o país passa por uma da piores crises diplomáticas com a Venezuela de sua história e encontra-se politicamente isolado da maioria dos países sul-americanos.

Para especialistas ouvidos pela BBC Brasil, uma das prioridades de Santos, ex-ministro de Defesa e herdeiro político do presidente colombiano Álvaro Uribe, deve ser de tentar inverter este cenário.

Para a analista política Maria Teresa Ronderos, um dos indícios de que a normalização das relações com a Venezuela está no topo da agenda da nova administração foi a nomeação da ex-embaixadora colombiana em Caracas, Maria Angela Holguín, como ministra de Relações Exteriores. "Isso mostra a prioridade que Santos dá ao tema Venezuela", afirmou.

© AP
Santos conversa com Uribe, atual presidente da Colômbia, durante cerimônia militar em Bogotá

Ronderos considera que, com a nova chanceler, vista na Colômbia como uma "técnica" da diplomacia, Santos pretende imprimir uma característica mais "pragmática" às relações exteriores, em especial no tema comercial com a Venezuela, cuja ruptura de relações já afeta a economia colombiana.

Desde que Uribe assumiu a Presidência, em 2002, o combate às guerrilhas por meio da expansão do Plano Colômbia - convênio militar financiado pelos Estados Unidos - acentuou a estreita relação entre Bogotá e Washington, em detrimento de alianças com a América do Sul.

Para Ronderos, o isolamento político dos últimos anos se tornou evidente na última reunião do Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos (OEA), quando a Colômbia acusou o governo venezuelano de abrigar acampamentos guerrilheiros em seu território. "A Colômbia ficou isolada (na OEA), somente os Estados Unidos apoiaram (as acusações)", afirmou.

As acusações foram o pivô da crise que resultou na ruptura de relações entre os dois países e foi vista com "estranheza" pela maioria dos chefes de Estado sul-americanos.

'Diplomacia de microfones'

Para a analista política Consuelo Ahumada, professora da Universidade Javeriana de Bogotá, a principal diferença entre Santos e Uribe na relação com a Venezuela e com os vizinhos deve ser a ruptura com o que chama de "diplomacia de microfones", uma referência ao enfrentamento público, não institucional, que caracterizou, por exemplo, a relação de Uribe com o presidente venezuelano Hugo Chávez.

"Uribe mantinha um estilo baseado no confronto. Para Santos, porém, é muito importante restabelecer o clima amigável com os vizinhos, para favorecer as relações comerciais, coerente com a política neoliberal do governo", afirmou.

Analistas consideram que Santos buscará se aproximar da Venezuela "o mais rápido possível", porque tem recebido pressão dos setores industriais do país para normalizar o fluxo comercial com o vizinho.

De acordo com o Banco Central da Colômbia, o país deve fechar o ano de 2010 com uma queda de 80% nas exportações para a Venezuela em relação a 2008, quando o país teve um superavit US$ 6 bilhões no comércio com o país. Para este ano, a previsão do BC é que o comércio com Caracas não ultrapasse US$ 1,2 bilhão.

Os sinais de distensão com o novo governo têm sido enviados também por Caracas. Ao mesmo tempo em que afirmou que Uribe "passaria à lixeira da história", Chávez disse esperar retomar o diálogo com o novo governo "com base no respeito". O mesmo sinalizou o chanceler venezuelano Nicolás Maduro, nesta semana, ao afirmar que seu governo "confia" que "nos próximos dias (a crise) será superada".

Farc e vizinhos

Para o analista político Maurício Romero, professor da Universidade Nacional da Colômbia, Caracas e Bogotá, precisarão de tempo para limar as asperezas diplomáticas. "Há uma desconfiança mútua muito grande. É preciso restabelecer a confiança primeiro e ir dando passos de reaproximação", afirmou.

© AP
Soldado é visto em posto de controle em Bogotá, onde a segurança foi reforçada para a posse de Santos

Para Romero, Santos só poderá romper com o isolamento com os vizinhos sul-americanos se adotar uma política mais transparente em relação ao acordo militar com os Estados Unidos e mudar a política em relação às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

"Se houver mudança em relação a estes dois temas, pode abrir um cenário no qual a Colômbia poderia recuperar a confiança dos países latino-americanos e entrar em uma nova etapa de relações com o continente", afirmou.

Para Romero, um dos caminhos seria a abertura para a mediação internacional em um eventual acordo de paz entre o governo e as guerrilhas colombianas, que, em sua opinião, poderia contar com o apoio do Brasil ou de organismos multilaterais como a Unasul, OEA e até mesmo as Nações Unidas, "sem interferir na soberania colombiana sobre o assunto".

Na semana passada, o líder máximo das Farc, Alfonso Cano, propôs a abertura de um diálogo com o novo governo, dias antes de Santos assumir a Presidência. O futuro vice-presidente, Angelino Garzón, respondeu, que "as portas não estão fechadas", mas que, para que as negociações sejam iniciadas, a guerrilha terá que concordar em libertar seus reféns de maneira incondicional.

Os analistas concordam que ainda é cedo para pensar em um diálogo de paz e que a política "linha dura" de Uribe tende a ser mantida no governo Santos, porém, estimam que pode haver espaços para "políticas de persuasão" para que os guerrilheiros abandonem a luta armada.

Crise doméstica

Uribe, um dos presidentes mais populares e controversos da história da Colômbia, entregará a seu sucessor um país relativamente mais seguro que há oitos anos, porém com 20 milhões de pobres, em uma população de 44 milhões, e com 3,5 milhões de pessoas vítimas de deslocamento forçado em consequência do conflito armado.

De acordo com analistas, um dos desafios de Santos na política doméstica será recuperar a credibilidade institucional, abalada durante a administração anterior, ajustar o deficit fiscal, estimado em mais de 4% do Produto Interno Bruto e reduzir o índice de desemprego de 12%, uma das mais altas taxas da América Latina.

Para a analista política Maria Teresa Ronderos, outra tarefa de Santos será se desvincular da herança uribista, caso queira imprimir características próprias em seu governo. A seu ver, já há sinais neste sentido, quando Santos nomeou dois adversários de Uribe como ministros nas pastas de Agricultura e Casa Civil.

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