Na Colômbia, Abbas busca apoio inédito a Estado palestino

Alinhado aos EUA e Israel, governo colombiano é o único da América do Sul a não apoiar iniciativa palestina

BBC Brasil |

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O presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, reúne-se nesta terça-feira com o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, para tentar convencer o único governo da América do Sul que ainda não reconheceu o Estado palestino a mudar de ideia.

AFP
Presidente palestino, Mahmud Abbas (E), recebe chave da cidade da prefeita de Bogotá, Clara Lopez, durante visita ao Palácio Lievano, na capital da Colômbia (10/10/2011)
Analistas ouvidos pela BBC Brasil, no entanto, não acreditam que Abbas possa ter sucesso na sua visita. Para eles, a posição do governo colombiano em não reconhecer o Estado palestino reflete a relação de subordinação da Colômbia em relação aos EUA e evidencia o isolamento do país na região.

O cientista político Benjamim Herrera, da Pontifícia Javeriana, lembra que a Colômbia e o México foram os únicos países da América Latina a não manifestar apoio ao reconhecimento da Palestina. Para ele, no caso colombiano, os motivos são a aliança histórica com os EUA e uma parceria antiga com Israel.

"A questão palestina é só uma prova do que estamos dizendo. Nas grandes causas, e nos temas cruciais para os EUA, a Colômbia apoiará Washington, mesmo que contrariando o posicionamento de todos os outros países da região", afirma.

"É certo que Santos está diversificando a política externa colombiana, reaproximando-se de países não alinhados ao governo americano. Mas, quando os EUA fecham questão, a Colômbia vai junto."

Argumentos

O governo, porém, nega que sua posição esteja relacionada à vontade de Washington. Santos declarou recentemente que a Colômbia quer que a Palestina tenha seu próprio Estado, mas que isso tem de acontecer por meio do diálogo. "Acreditamos que o reconhecimento do Estado Palestino deve ser produto de um acordo de paz, não por uma imposição. Para isso nos oferecemos como mediadores", disse o presidente.

Para a professora de Política Internacional da Universidad de los Andes, a americana Arlene Tickner, o argumento do governo colombiano não convence. "As tentativas de diálogo já foram esgotadas. Não há mais o que tentar."

A professora destaca que mesmo o chamado Quarteto para o Oriente Médio - formado por EUA, Rússia, União Europeia e França, que propõe uma agenda de negociações - sabe que as discussões fracassaram.

"É com essa argumentação frágil que a Colômbia se isola, não apenas na postura frente aos países vizinhos, mas também no discurso político que usa para se justificar", diz Tickner. Ela acredita também que o máximo que a Colômbia pode fazer para não "destoar" tanto de seus vizinhos na América do Sul é se abster de votar no Conselho de Segurança da ONU, onde ocupa uma vaga atualmente.

"De qualquer maneira, com voto negativo ou abstenção, a Colômbia se coloca na contramão da região. Uma postura delicada para quem, ao conseguir a vaga no Conselho, prometeu ser porta-voz da América do Sul e Caribe."

Malvinas

Herrera lembra que a Colômbia já divergiu dos países sul-americanos em outras situações. "Na Guerra das Malvinas, por exemplo, o governo colombiano esteve contra a Argentina e os demais países da região, mantendo-se aliado aos EUA e Grã-Bretanha."

O cientista avalia que, ao contrário de outros países como Venezuela, Argentina, Brasil e Equador, a Colômbia não teve governos mais de esquerda, que propiciaram um distanciamento maior da política externa americana.

"Na Colômbia, os governos têm uma tradição de direita ou de centro, com representação política de grupos mais ligados aos EUA. Não houve em nenhum momento rupturas representativas, como nos países vizinhos."

Amizade

Os analistas também não descartam o peso da relação Israel-Colômbia. Vários governos colombianos já compraram armas de Israel para o Exército e foram influenciados pelo modelo de inteligência israelense.

"A Colômbia é bem alinhada aos EUA e a Israel nas questões de segurança. Sempre foi assim. Compartilham não só armamento, mas também estratégias semelhantes quanto a esse tema", afirma Herrera.

Além disso, ele destaca a proximidade do atual governo colombiano junto a Israel. Ele conta que, mesmo antes de se tornar político, Santos já havia realizado eventos em Bogotá trazendo historiadores e representantes das autoridades israelenses ao país."É notório que Santos é amigo de Israel, isso ficou claro também quando ele contratou militares israelenses como assessores para o Ministério da Defesa, quando ocupava este cargo no governo do ex-presidente Álvaro Uribe".

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