Mulheres se embelezam para receber mineiros após meses separados

Novos penteados, vestidos, peças de lingerie e promessas de casamento religioso esperam os trabalhadores do lado de fora da mina

BBC Brasil |

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Há pouca privacidade no acampamento Esperança, a vila montada em tendas onde muitos parentes dos 33 mineiros têm morado há mais de dois meses.

Cristina Nunez, 26, se acostumou a escovar os dentes perto do pequeno altar que construiu para o seu noivo, Claudio Yanez. Ela alisa o cabelo enquanto jornalistas tiram a sua foto. Mas quando eu lhe pergunto como está se preparando para o dia em que Cláudio será resgatado, ela ri, pega a minha mão e me puxa para a privacidade de sua pequena tenda.

Lá, puxa duas peças de lingerie de uma mala. “Eu ganhei isso de uma mulher dona de uma loja em Copiapo”, ela me diz. “Eu não tive certeza no início se deveria usá-las ou não, mas quando mencionei isso ao Cláudio, ele pareceu ter gostado da ideia, então eu vou.”

Embora Cristina e Claudio sejam um casal há 11 anos e tenham duas filhas, eles nunca se casaram. Mas nas primeiras cartas trocadas desde que ele ficou preso, decidiram dar o passo que faltava. E agora Cristina mal pode esperar para rever o noivo e “cobri-lo de beijos”.

E ela não é a única no Acampamento Esperança a ter recebido uma proposta romântica de 700 metros abaixo da terra.

Mario Gómez, o mais velho dos mineiros presos, com 63 anos, disse que queria levar a sua parceira por mais de 30 anos, Lilian Ramirez, ao altar para um casamento religioso.

Casamento

Então Lilian, 57 anos, quer ter certeza de estar bonita da próxima vez que o encontrar. Ela pretende comprar um vestido para a ocasião. “Algo simples mas elegante, e um salto alto para usar junto”, ela explica.

Se o tempo permitir, ela pegará um dos ônibus diários que o governo pôs à disposição das famílias para que vão até a cidade vizinha de Copiapo para cortar o cabelo.

Já Antonia Godoy diz não ter tempo para cortar o cabelo. Aparentando estar cansada, ainda que alegre, ela diz ter uma importante notícia a divulgar. Ela conversou com Richard Villaroel, seu filho de 26 anos, pelo telefone. Ele disse que queria se casar.

Sua namorada, Dana Castro, não pode estar na mina porque está prestes a dar à luz seu primeiro filho, Richard Jr.. Então Antonia fará o papel de cupido. “Acho que vou ligar para Dana e perguntar: ‘você quer se casar com o meu filho?’ E então vou contar a resposta”.

Antonia diz que, com um presente como Richard Jr., a família preparou pouco para o dia D, como o dia do resgate ficou conhecido.

Mas eis que Antonia, a irmã de 11 anos de idade de Richard, intervém. “Eu preparei algo. Richard me pediu que me esforçasse na escola, e eu o fiz, tirando notas muito boas.”

Amor fraterno

As irmãs dos mineradores têm tido um papel crucial no acampamento. Maria, a irmã de Dario Segovia, ficou conhecida como “a prefeita” por sua capacidade de organização e facilidade para se expressar.

Foi ela quem negociou com o governo a instalação de chuveiros, tendas e aquecedores para mantê-los aquecidos durante as frias noites do deserto. Ela diz que antes do dia D irá atrás de maquiagem, pedicure e manicure para tirar toda a poeira do deserto dela, e colorir os fios brancos em seu cabelo.

Já Zulemy Barrios acha frívolo todo esse papo de celebrações. Ela acredita que a provação dos mineradores está longe do fim. Seu irmão, Yonny Barrios, ganhou as manchetes quando sua mulher e sua namorada apareceram na mina. Zulemy diz que o irmão é um homem quieto, que não gosta de holofotes.

Ela teme pelo assédio da imprensa sobre ele após o resgate. Mas, diz Zulemy, tudo o que ela e os sete irmãos podem fazer é estar lá quando ele quiser falar. “Não sei o que ele fará da vida dele, ou onde ele ficará”, diz ela. “Mas nós respeitaremos qualquer decisão que ele tomar”.

Alicia Campos sabe exatamente onde levará o filho, Daniel Herrera, depois do resgate. Ela é profundamente religiosa e já conversou com o padre de sua igreja na pequena cidade de Marchigue sobre a condução de uma missa de ação de graças.

Ela diz que, ao contrário de muitas mulheres no acampamento, não mudará a aparência.
“Meu cabelo embranqueceu de preocupação”, diz ela. “Mas não vou pintá-lo. Estou muito velha para isso, e, de qualquer forma, é assim que meu filho me conhece. Quando ele renascer – porque esse resgate será como um renascimento – eu quero que ele me veja como quando me deixou, sem diferença”.

Mas no fundo, diz Alicia, ela sabe que nem seu filho nem a vida dela voltarão a ser iguais.

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