Mubarak se mantém no poder com mãos de ferro há quase 30 anos

Trajetória de líder egípcio é marcada por rigidez militar e governo baseado em lei de emergência, que amplia poderes do Estado

BBC Brasil |

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Aos 82 anos de idade, o presidente egípcio, Hosni Mubarak, no poder há quase três décadas, é o grande sobrevivente do Egito.

Poucos imaginavam que o vice-presidente, praticamente desconhecido, que assumiu a presidência do país após o assassinato de Anwar Sadat, em 1981, conseguiria se manter no cargo por tanto tempo. Sadat foi assassinado por militantes islâmicos durante uma parada militar no Cairo. Mubarak, sentado ao seu lado, teve sorte em escapar ileso.

Desde então, já sobreviveu a pelo menos seis tentativas de assassinato - na mais séria, o ataque ao carro presidencial logo após a chegada de Mubarak à capital da Etiópia, Addis Abeba, em 1995, para participar de uma cúpula de países africanos.

Além do talento para se desviar dos tiros, o ex-comandante da Força Aérea também vem segurando com força as rédeas do poder, assumindo um papel de aliado confiável dos Estados Unidos e combatendo um poderoso movimento de oposição em casa.

No entanto, com as revoltas no país, seu prestígio regional diminuindo, sua saúde fraquejando e dúvidas sobre sua sucessão, muitos se perguntam por quanto tempo Mubarak será capaz de prosseguir.

Primeiros anos

Nascido em 1928 em uma pequena cidade na província de Menofiya, perto do Cairo, Mubarak mantém sua vida particular longe do domínio público. Ele é casado com Suzanne Mubarak - de ascendência britânica, formada na American University, no Cairo - e tem dois filhos, Gamal e Alaa.

Mubarak não fuma, não bebe e é conhecido por levar uma vida regrada e saudável, com uma rígida rotina diária que tem início às 6h. No passado, amigos e colaboradores próximos reclamavam da rotina do presidente, que começava com uma sessão na academia ou um jogo de squash.

Muhammad Hosni Sayyid Mubarak tomou posse no dia 14 de outubro de 1981, oito dias após o assassinato de Sadat. Apesar da falta de apelo popular e de um perfil internacional, o militar musculoso criou uma reputação de estadista internacional com base na questão que resultou na morte de Sadat: a busca da paz com Israel.

Estado de emergência

Na prática, desde que assumiu o poder, Hosni Mubarak vem comandando o Egito como um líder militar. Ele governa o país com base em uma lei de emergência que dá ao Estado o direito de prisão e de coibir direitos básicos. O argumento do governo é que o controle total é necessário para combater militantes islâmicos, cujos ataques têm como alvo, com frequência, o lucrativo setor de turismo egípcio.

Sob a liderança de Mubarak, o Egito vive um período de relativa estabilidade doméstica e desenvolvimento econômico, o que levou a maioria da população a aceitar sua monopolização do poder. Mas, nos últimos anos, o presidente vem sofrendo pela primeira vez pressões para que a democracia seja incentivada no Egito. As pressões vêm do próprio país e também do seu aliado mais poderoso, os Estados Unidos.

Muitos dos que reivindicam reformas políticas duvidam da sinceridade do líder veterano quando ele diz ser favorável a uma abertura do processo político.

Desde 1981, Mubarak venceu três eleições como candidato único, mas o quarto pleito convocado por ele - em 2005, após um empurrão firme dos Estados Unidos - teve as regras alteradas para permitir candidaturas rivais.

Críticos dizem que a eleição foi manipulada para favorecer Mubarak e seu partido, o Partido Nacional Democrático (NDP, na sigla em inglês). Eles acusam o líder egípcio de comandar uma campanha de supressão a grupos de oposição, entre eles, especialmente, o movimento Irmandade Muçulmana. Há indicações, vindas do NDP, de que o líder octogenário planeja concorrer novamente em eleições marcadas para o fim deste ano.

A duração de seu governo, sua idade e a questão de sua sucessão são temas delicados no Egito. Os que o cercam dizem que a saúde e vigor de Mubarak escondem sua idade - embora problemas recentes de saúde tenham servido como lembretes de sua idade.

Os rumores a respeito da saúde do presidente aumentaram quando ele viajou para a Alemanha, em março de 2010, para se submeter a uma cirurgia na vesícula. As especulações afloram toda vez que ele não comparece a algum encontro importante ou sai de circulação por algum tempo. Apesar de esforços de representantes do governo egípcio para negá-los, os rumores continuam circulando, com relatos sendo publicados pela mídia israelense e árabe.

Militares

Dias de protestos em massa em cidades egípcias levaram Mubarak a finalmente nomear um vice-presidente, no último dia 29. Ele é Omar Suleiman, ex-chefe da inteligência egípcia.

A manobra está sendo interpretada como uma tentativa de Mubarak de buscar o apoio dos militares. Até esse momento, não havia um sucessor óbvio, mas grupos de oposição temiam que o filho de Mubarak, o ex-investidor Gamal Mubarak, 40 anos, estivesse sendo preparado para herdar o posto em uma espécie de dinastia de poder disfarçada de transição democrática.

Gamal insistia que não tinha ambições de ser presidente. No entanto, advogando reformas econômicas e políticas, ele vinha subindo gradualmente nos escalões do NDP.

Historiadores ressaltam que, desde a revolução de 1952, todos os presidentes egípcios foram militares. Gamal, um civil, pode ter tido dificuldades em ganhar o apoio deste importante setor.

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