McChrystal passa de bem-visto a general encrenqueiro

General foi dispensado por Obama após comentários polêmicos em artigo da revista "Rolling Stone"

BBC Brasil |

O general Stanley McChrystal ocupava o comando das forças dos Estados Unidos e da Otan no Afeganistão desde maio de 2009. Ele perdeu o cargo após ter criticado o embaixador americano em Kabul, Karl Eikenberry, e transformado em alvo de piadas o enviado especial americano ao Paquistão e Afeganistão, Richard Holbrooke.

Nem o próprio Obama teria escapado de suas críticas, segundo relato de um de seus assessores. Com a demissão, o militar pediu desculpas pelos comentários . "Foi um erro que reflete mau julgamento, que nunca poderia ter ocorrido", afirmou.

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McChrystal é visto em audiência no Senado americano em dezembro de 2009

McChrystal havia sido escolhido para o cargo pelo secretário de defesa, Robert Gates, por "trazer um novo olhar ao problema afegão". Era também bem-visto pela imprensa americana por sua luta contra rebeldes do Talebã.

Ele cultivava a imagem de soldado espartano, com sua rotina diária de quatro horas de sono, onze quilômetros de corrida e apenas uma refeição.

Conflitos

Politicamente, porém, sua situação não era simples. Por duas vezes, viu-se em maus lençóis com Obama. No ano passado, o presidente o repreendeu por defender abertamente o envio de mais tropas ao Afeganistão.

McChrystal havia afirmado à Casa Branca que sua missão no país poderia fracassar em 12 meses sem o reforço de novos soldados e maior treinamento para as forças afegãs. Também não poupou críticas ao governo afegão.

No segundo - e derradeiro - episódio, o general foi chamado de volta a Washington, no começo de junho, depois de suas críticas à administração Obama na entrevista à revista Rolling Stone. Segundo a publicação, na ocasião, seus auxiliares fizeram piadas com o vice-presidente Joe Biden e o assessor de segurança da Casa Branca, James Jones.

A revista também sugeriu que o general teria afirmado que ficou decepcionado com o comportamento do próprio Obama em um dos seus primeiros encontros. "Foi uma sessão de foto de dez minutos", disse um assessor não identificado. "Obama não sabia nada sobre ele."

© AP
Primeira página da reportagem da "Rolling Stone" sobre o general, que será publicada sexta-feira

Após as críticas, o jornal The Washington Post afirmou que as declarações levantavam "novas questões sobre sua capacidade de julgamento e estilo de liderança do general".

Decepção

Quando apontado para o cargo, general McChrystal parecia representar o futuro do planejamento militar vislumbrado por Obama e Gates. A nova estratégia previa combates menos convencionais e mais assimétricos.

Logo de início, McChrystal deixou claro às suas forças que era preciso abandonar a visão de que lutavam contra o Talebã e seus aliados. Em vez disso, deveriam concentrar a atuação na proteção a civis afegãos.

Na prática, essa mudança de foco significava o fim dos ataques aéreos indiscriminados, responsáveis por muitas mortes de civis. Em contrapartida, era preciso aumentar o número de soldados para formação de mais patrulhas.

Depois de longas e complicadas negociações com Obama, o general conseguiu sinal verde parar levar mais 30 mil soldados ao país, ainda que sob a promessa de reduzir o tamanho da tropa a partir de junho de 2008.

Carreira

Nascido em 1954 em uma família militar, McChrystal graduou-se na academia militar de West Point em 1976. Nas três décadas seguinte, progrediu na carreira com posições de comando em operações convencionais e especiais, inclusive na Guerra do Golfo.

Em setembro de 2003, ele ingressou nas Operações Especiais Unidas (JSOC, em inglês), responsáveis pelo planejamento e execuções de operações sigilosas a cargo de forças especiais militares no exterior.

Pouco é divulgado sobre sua passagem pelas JSOC. Sabe-se, porém, que, sob seu comando, as JSOC capturaram o ex-presidente iraquiano Saddam Hussein e mataram o líder da Al-Qaeda no Iraque, Abu Musab al-Zarqawi.

O general é também conhecido por ter se aproximado de outras organizações militares e de inteligência, como a CIA, da qual as JSOC tradicionalmente mantinham distância.

Em 2007, a reputação do militar sofreu alguns arranhões depois de o Pentágono revelar que um soldado, condecorado graças à recomendação de McCrhystal, havia matado acidentalmente um jogador de futebol no Afeganistão.

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