Malvinense acredita que ilhas são argentinas e briga com família

Vivendo na Argentina há quase 30 anos, Alexander Betts não fala com irmãos que defendem Reino Unido em disputa pelas Malvinas

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Alexander Betts mostra seu passaporte malvinense
O ex-contador público Alexander Betts, de 64 anos, nasceu nas Ilhas Malvinas (Falklands) e é o único da família de oito irmãos que defende que o arquipélago no Atlântico Sul é dos argentinos e não dos britânicos.

Betts mora há quase 30 anos na Argentina, onde chegou em outubro de 1982, pouco depois do fim da guerra entre argentinos e britânicos, que começou no dia 2 de abril e terminou em junho daquele ano.

Saiba mais: Entenda a disputa entre Reino Unido e Argentina pelas Malvinas

Sua opinião é motivo de discórdia na família. Em entrevista à BBC Brasil, ele contou que há dez anos não fala com a mãe, Malvina Goss, de 86 anos, com três irmãos, e com a filha, Dawn, de 41 anos, que se consideram britânicos e moram nas Malvinas.

E há cinco anos também não se comunica com o irmão Terry Betts, integrante do Conselho Legislativo das Malvinas, e que atualmente mora na Grã-Bretanha. Os outros dois irmãos, que vivem na Nova Zelândia, entendem sua postura, mas, contou Betts, "não a aceitam".

O irmão mais velho, que já morreu, também pensava como a maioria da família, que as ilhas são dos britânicos. "As Malvinas são argentinas porque os argentinos ali estavam até a chegada dos britânicos (a partir de 1832) e fizeram a história das ilhas", disse Betts em espanhol, mas com sotaque inglês.

O malvinense possui a cidadania argentina desde os anos 80, assim que a Argentina se rendeu às tropas britânicas. Desde então, ele intensificou seus estudos e se especializou no assunto Malvinas. "Os malvinenses são malvinenses. Não têm o estilo dos ingleses ou dos argentinos. São reservados e levam uma vida pacata", disse.

Ele contou que "estudou muito" antes de chegar a esta conclusão e que tentou transmitir seus conhecimentos à família, mas não conseguiu.

"Minha família não compartilha da minha opinião, apesar de eu ter tentado mostrar a eles esta realidade. Mas entendo, porque eles moram em uma comunidade muito pequena e fechada, onde não há possibilidade de pensar de forma diferente", afirmou.

Suas declarações foram feitas no momento em que os governos da Argentina e da Grã-Bretanha travam nova disputa verbal pela soberania das Ilhas e a menos de dois meses dos 30 anos da guerra entre os dois países.

'Che'

Betts disse que antes da guerra, que terminou com a derrota das tropas argentinas, os malvinenses falavam inglês mas com forte influência argentina. "Na minha infância e adolescência, era comum chamar a outra pessoa de 'che', como dizem os argentinos, apesar de o inglês ser o idioma na ilha", afirmou.

Também era comum, recordou, o hábito de se tomar 'mate' (chimarrão) na região. Segundo ele, depois da guerra esta influência argentina foi sendo "eliminada" pelas novas gerações. Mas para Betts várias iniciativas argentinas no arquipélago se perpetuaram, como a "forma gaúcha de viver" nas áreas rurais da região. "Os argentinos levaram gado para a ilha e toda a cultura dos gaúchos, incluindo como administrar uma fazenda", disse.

Betts mora na localidade de Água de Oro, na província de Córdoba, e gosta de passar férias na província de Terra do Fogo, no extremo sul da Argentina, a costa mais próxima das Malvinas. "Terra do Fogo é a província dos malvinenses. Estou feliz na Argentina, feliz onde moro, no que trabalho e com o estilo de vida daqui, muito mais aberto do que nas Ilhas", afirmou.

Quando deixou as Malvinas, Betts era viúvo e, pouco depois de seu embarque, foi a vez de seu filho Pablo, então com 14 anos, viajar para o continente argentino. A filha mais nova, que tinha 11 anos, ficou com a avó e hoje trabalha para o governo britânico em Puerto Argentino, nas Malvinas.

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Alexander Betts não fala com a mãe e irmãos há dez anos

Pablo tem hoje 42 anos e mora na cidade argentina de Rosário, na província de Santa Fé, ao lado de Córdoba. "A relação de Pablo (com a família nas Malvinas) é nula".

Betts tem ainda três filhos do segundo casamento com uma argentina.

Malvinense e argentino

Betts conta a história das ilhas com datas, por exemplo, quando recorda que "no século 18, os franceses levaram gado para as ilhas para a sobrevivência, depois chegaram os espanhóis que ficaram até 1811 e, depois, a partir de 1826, os argentinos que levaram o modo de vida para as ilhas". Para ele, é provável que hoje haja mais descendentes de malvinenses na Argentina do que malvinenses nativos no arquipélago.

Segundo Betts, em 1884, um governador da província de Santa Cruz esteve nas ilhas, se apaixonou por uma nativa e, com ela, foram 45 famílias para a Argentina. "Estima-se que mais de 1,2 mil pessoas são descendentes daqueles malvinenses que vieram. E também por isso a ligação dos malvinenses com o continente argentino é histórica."

As Ilhas Malvinas têm cerca de 3 mil habitantes, mas pouco mais de mil, disse, seriam nativos. Os primeiros dos Betts a chegar às ilhas foram os tataravós e bisavós do ex-contador, que também é especializado em aviação civil e autor de três livros sobre as Malvinas. Um deles é La verdad sobre Malvinas, mi tierra natal (A verdade sobre as Malvinas, minha terra natal).

Para ele, mesmo tantos anos depois, não existem dúvidas. "Minha decisão (de se mudar para o continente argentino) foi a mais civilizada e acertada."

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