Lula vê teoria de Maquiavel na relação de potências com o Irã

Presidente diz que sanções aprovadas pela ONU só existem para empresas de países em desenvolvimento, não para Rússia, China e EUA

BBC Brasil |

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta terça-feira, na província argentina de San Juan, que a reação negativa das potências ocidentais ao acordo que Brasil e Turquia negociaram para a troca de combustível nuclear com o Irã lembra um elemento da teoria de Maquiavel.

Em discurso durante a reunião de cúpula do Mercosul, Lula afirmou que as sanções aprovadas pelo Conselho de Segurança da ONU contra o Irã não funcionam e só existem para empresas do Brasil e da Argentina, mas não para russos, chineses ou americanos.

"A Rússia vai continuar construindo fábrica nuclear lá (no Irã), e a China explorando petróleo lá", disse o presidente. "Eu me pergunto se essas pessoas querem manter a paz ou se querem manter o clima de instabilidade que existe para utilizar uma teoria da política conhecida de Maquiavel: 'é necessário dividir para reinar'."

"Eles nos diziam que era impossível (um acordo), que o Irã não queria sentar para conversar, e o acordo foi assinado, mostrando que o Irã está disposto a negociar", acrescentou Lula. "Mas, para nós, foi uma surpresa quando os países de Viena (grupo formado por Estados Unidos, Rússia, França e pela agência nuclear da ONU) começaram a discutir o aumento das sanções ao Irã."

Diálogo

Durante o discurso na Argentina, Lula também voltou a expressar insatisfação em relação à postura do governo americano quanto ao acordo negociado com o Irã. "O que mais me incomodou é que o documento que assinamos foi o que (Barack) Obama (presidente dos Estados Unidos) tinha me dito que era necessário conseguir, e conseguimos", afirmou.

Em seu pronunciamento, o presidente afirmou ainda que os maiores produtores nucleares do mundo são os integrantes do Conselho de Segurança da ONU e lembrou que esteve no Irã e recebeu o líder iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, no Brasil.

De acordo com Lula, antes de sua aproximação com o Irã, nenhum dos integrantes do Conselho de Segurança da ONU tinha conversado com o presidente iraniano. "Eu não conhecia o presidente do Irã", disse o presidente. "O que me impactou foi que os grandes países do Conselho de Seguraça não tinham falado com o presidente do Irã. E são justamente os cinco países que tem mais armas nucleares no mundo."

América do Sul

Depois das declarações sobre as negociações com o Irã, Lula comentou a crise entre Colômbia e Venezuela. O presidente venezuelano, Hugo Chávez, rompeu relações com o governo colombiano, que diz ter provas da presença de guerrilheiros no país vizinho.

Lula voltou a defender o diálogo entre os dois países, principalmente depois da posse do presidente eleito da Colômbia, Juan Manuel Santos, marcada para o próximo dia 7. "Como fazer a paz se Chávez e o novo presidente não se sentarem para conversar?", questionou o brasileiro. "Em política, não podemos subcontratar o mandato que nos deu o povo."

"Nós não queremos guerra. E, se alguém quer conhecer um lugar tranquilo, olhe para a América do Sul. Nós temos todos os defeitos do mundo, mas não queremos a guerra", acrescentou Lula.

Convite

Na segunda-feira, já em San Juan, o ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Nicolas Maduro, disse que a Venezuela era ameaçada pelo país vizinho. Segundo os sites argentinos, Maduro teria dito que a Colômbia queria uma "guerra".

"Hoje, vive-se uma situação de ameaça à tranquilidade da Venezuela, e esperamos que a situação se resolva nos próximos dias", disse Maduro, em novo discurso, nesta terça.

Depois de pedir uma solução negociada para a crise, Lula também se referiu ao presidente colombiano, Álvaro Uribe, que criticou declarações recentes do colega brasileiro sobre o assunto.

"Fiz uma declaração à imprensa e Uribe me criticou. Mas vou me vingar do Uribe e, na sexta-feira, vou ao seu jantar de despedid a. E tomara que me convidem para sentar do lado dele", brincou o presidente.

Lula também aproveitou o discurso para lembrar que está no fim de seu governo e agradeceu a "solidariedade" dos colegas do Mercosul durante os seus oito anos de mandato.

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