Lei de imigração é "discriminatória", diz democrata

Prefeito de Phoenix, capital do Arizona, afirma que nova lei do Estado é "ruim" e não reflete a vontade dos moradores

BBC BRasil |

Em seu segundo mandato como prefeito de Phoenix, o democrata Phil Gordon tem sido um dos maiores críticos da nova lei de imigração do Arizona, assinada no fim de abril pela governadora Jan Brewer, do Partido Republicano.

A nova lei, com data prevista para entrar em vigor no fim de julho, torna crime estadual a presença de imigrantes ilegais e dá à polícia o poder de exigir documentos de pessoas suspeitas. Caso a polícia comprove a situação ilegal destas pessoas, elas podem ser presas e deportadas.

O prefeito da capital do Arizona diz que a lei é "ruim", "discriminatória", não reflete a vontade dos moradores do Estado e é resultado de anos de frustração com o fracasso de diferentes governos federais em garantir a segurança na fronteira com o México.

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Phil Gordon, prefeito de Phoenix, participa de protesto contra nova lei ao lado da cantora Shakira

"É uma lei muito polêmica. Para mim, é a expressão de uma frustração da maioria do povo do Arizona, dizendo que nossas fronteiras não foram guardadas", disse Gordon à BBC Brasil.

Entre os Estados americanos, o Arizona é o que tem a fronteira mais extensa com o México e o que recebe o maior número de imigrantes ilegais. Pelos cálculos do governo, há pelo menos 450 mil imigrantes ilegais no Estado, em uma população de cerca de 6,5 milhões.

"Temos muitos danos a propriedade, muita violência na fronteira, porque os traficantes de pessoas estão também traficando drogas e armas para dentro (dos Estados Unidos). Há muito dinheiro envolvido. Esses traficantes não têm respeito à vida, seja de imigrantes ou não-imigrantes".

Pesquisas

O anúncio da nova lei gerou uma série de críticas e protestos contra o Arizona. Os críticos dizem que a lei vai favorecer a discriminação racial, especialmente contra hispânicos, que formam grande parte da população do Arizona.

Diversas pesquisas de opinião, porém, mostram que a lei tem o apoio de mais da metade da população americana e pelo menos 15 Estados americanos estudam adotar legislações semelhantes.

No início de maio, uma pesquisa feita pelo instituto americano Pew Research Center em todo o país indica que 59% aprovam a lei. Mas o prefeito diz que a lei não reflete a opinião do povo do Arizona.

"A maioria das pessoas quer uma reforma ampla da imigração, para que as pessoas que estão aqui possam trabalhar legalmente, para que aqueles que estão aqui há um longo tempo possam ficar aqui legalmente", afirma.

Economia

Perguntado sobre os números revelados nas pesquisas, Gordon diz não acreditar em sua precisão. "Acho que os números não estão corretos, por diversas razões. Em primeiro lugar, como em qualquer pesquisa, a questão é como você faz a pergunta e quantas perguntas faz. Em segundo lugar, as pesquisas foram feitas há algum tempo, antes que a economia do Estado começasse a ser afetada", diz, em referência aos boicotes lançados por mais de dez cidades americanas contra o Arizona depois do anúncio da lei.

Os boicotes atingiram os cofres do Arizona no momento em que o Estado começava a se recuperar da crise econômica mundial.

Segundo a Câmara de Comércio do Arizona, as perdas com o cancelamento de convenções e outros eventos no Estado foram de pelo menos US$ 90 milhões apenas nas primeiras semanas após o anúncio da lei.

"Acho que na medida em que isso for aumentando, quanto mais problemas econômicos, mais as pessoas vão começar a ver o que essa lei faz e o que não faz", afirma o prefeito.

Divisão

Os defensores da lei dizem que ela vai ajudar a combater a violência e associam a criminalidade no Estado ao grande número de imigrantes ilegais, muitos dos quais entram no país atravessando o deserto na fronteira com o México.

No entanto, Gordon também diz não concordar com essa visão. "Essa lei dividiu nossa comunidade. Criou muito medo, muita preocupação", diz.

O prefeito afirma que a legislação vai criar uma barreira entre a polícia e a comunidade hispânica, quebrando a relação de confiança. "Nossa polícia agora não vai ter os olhos e os ouvidos da comunidade de imigrantes, que ficarão com medo de serem presos ao denunciar um criminoso verdadeiro, um traficante de drogas, um assassino, um estuprador."

Processo

Gordon diz considerar a lei inconstitucional. "Na minha opinião, viola a Constituição dos Estados Unidos, porque, em primeiro lugar, a imigração é uma questão constitucional federal, que cabe ao governo federal e não ao governo estadual", afirma.

"Em segundo lugar, da maneira como (a lei) está estruturada, acho que vai levar a discriminação racial, e certamente este é o temor da comunidade. Então, por essas duas razões legais, acho que (a lei) é ruim".

Nos dias que se seguiram à assinatura da lei, o prefeito chegou a dizer que iria entrar com uma ação contra o Estado. Sem apoio da Câmara Municipal, ele afirma que desistiu da ideia, mas que não abandonou a mobilização contra a medida.

"No momento, há outros cinco ou seis processos (contra a lei), e o governo federal, eu acredito, irá entrar com um processo. Os meus esforços provavelmente serão melhor empregados tentando educar as pessoas de que esta não é uma boa lei para o Estado do Arizona e defendendo os Direitos Civis".

As ações contra a lei do Arizona geralmente argumentam que as questões relacionadas à imigração devem ficar a cargo do governo federal, e não dos Estados.

O prefeito diz ter esperança de que até 29 de julho, data prevista para a entrada em vigor da lei, já haja alguma decisão dos tribunais sobre estes processos.

"Aí haverá vários recursos e temos esperança de que, como isso deve levar muito tempo, a lei não entre em vigor", afirma. "E que então o governo federal, depois das eleições legislativas de novembro, avance em uma ampla reforma da imigração".

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