Justiça argentina prende pai de juíza que contrariou pedido do governo

Uma juíza argentina acusa o governo da presidente da Cristina Kirchner de ordenar a prisão de seu pai para pressioná-la por causa de uma recente decisão determinada por ela de proibir o uso de reservas do Banco Central para pagamento de dívida pública. O pai da juíza María José Sarmiento, o militar da reserva Luis Alberto Sarmiento, de 85 anos, é acusado de crimes contra a humanidade durante a última ditadura no país (1976-1983).

BBC Brasil |

A prisão do militar foi determinada nesta sexta-feira por um juiz federal da província argentina de Misiones.

"Claro que eles estão tentando me pressionar", afirmou a juíza Sarmiento, que já havia denunciado, em janeiro, ter sofrido intimidação policial.

Ela foi a primeira a impedir, em janeiro, o uso de reservas do Banco Central para pagamento da dívida pública, conforme pretendia a presidente Cristina Kirchner.

Em entrevista à rádio Diez, Sarmiento disse que o pedido de prisão é uma "pressão" do governo contra ela. A juíza afirmou ainda temer o que possa ocorrer a partir de agora.

"É nosso trabalho controlar os atos do governo. Faço este trabalho há dezenove anos. Mas agora percebo exagero nas ações (da administração central). Sinto medo", afirmou.

Segundo ela, o pai está doente, mas não mudará sua postura. "Entendo como pressão, mas não vou ceder", disse.

A presidente Kirchner pretendia usar as reservas para o chamado Fundo Bicentenário, que tinha como objetivo o pagamento de parte da dívida pública do país.

A recusa do então presidente do Banco Central argentino Martin Redrado a liberar os fundos para esse fim causaram uma grande polêmica e a eventual demissão do líder da autoridade monetária.

A demissão e o uso das reservas foram suspensas por ordem da juíza Sarmiento em janeiro. Desde dezembro, o assunto enfrenta um impasse e está no centro da disputa entre governo e oposição, envolvendo Executivo, Legislativo e Judiciário.

Críticas
As declarações da juíza sobre a suposta perseguição do governo foram criticadas pelo secretário de Direitos Humanos, Eduardo Luis Duhalde.

"Se ela tem medo, deveria procurar um psicólogo", afirmou, segundo o site Infobae.

Duhalde disse ainda que a reação da juíza é "um absurdo", já que o pai dela é acusado desde 2006, a partir de denúncia da ex-presa política Graciela Franzen, que teria sido torturada na prisão e cujo irmão morreu na cadeia durante a ditadura.

Em março de 1976, quando ocorreu o golpe militar, o pai de Sarmiento era chefe da inteligência do Exército de Posadas, em Misiones, e foi promovido a ministro do governo local e responsável pela área de segurança.

Segundo a investigação da Justiça Federal de Misiones, entre abril e novembro daquele ano, teriam sido registrados 90 sequestros, torturas e assassinatos naquele território, que faz fronteira com o Brasil.

Nesta sexta-feira, policiais estiveram na casa do pai da juíza, mas por recomendação médica ele não foi retirado do local. Setores da oposição disseram que o caso faz parte "da decisão do governo de conseguir uso das reservas".

A deputada da oposição Elisa Carrió disse que se trata de "mais uma ação do governo para destruir juízes independentes".

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