Jovens desiludidos têm papel-chave na eleição espanhola

Eleitores com menos de 35 anos devem favorecer conservadores por causa de crise financeira e desemprego sob governo socialista

BBC Brasil |

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A desilusão dos jovens espanhóis pode ter um papel fundamental nas eleições gerais do próximo domingo, quando, segundo as pesquisas, o conservador Partido Popular (PP) deve vencer por ampla maioria.

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Homem fotografa bustos do candidato socialista espanhol, Alfredo Rubalcaba (E), e do candidato conservador Mariano Rajoy no Museu de Cera de Madri
Enquanto na votação de 2008 o Partido Socialista Obrero Español (PSOE) tinha a maior vantagem sobre seus opositores entre os eleitores com menos de 35 anos, hoje a tendência se inverteu. O Instituto de Estudos Sociais e de Opinião Metroscopia indica que, na mesma faixa etária, a vantagem dos conservadores é de 10,8 pontos percentuais em relação aos socialistas nas intenções de voto.

"A crise econômica provocou uma reviravolta na opinião pública", disse à BBC José Pablo Ferrándiz, diretor do Metroscopia. Ferrándiz diz não acreditar que tenha havido uma migração em massa de votos jovens do PSOE para o PP, mas que alguns se absterão de votar ou votarão em branco, enquanto outros migrarão para os demais partidos de esquerda. "O problema do PSOE é que ele tem mais partidos à sua esquerda que o PP tem à sua direita."

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'Ampla vantagem'

Uma vitória de Mariano Rajoy, do PP, levará os conservadores ao poder após quase oito anos de governo do primeiro-ministro socialista José Luiz Rodriguez Zapatero. No campo econômico, o premiê foi criticado primeiro por negar e depois por demorar a reagir à crise financeira na Espanha e à explosão da bolha imobiliária que havia inflado o PIB espanhol por quase uma década.

A popularidade de Zapatero despencou e ele anunciou que não concorreria a mais um mandato, permitindo que o nome do ex-ministro do Interior Alfredo Perez Rubalcaba, figura importante do PSOE, surgisse como candidato do partido.

Segundo as últimas pesquisas de intenção de voto, o PP não só sairá vencedor das urnas, como não precisará fazer acordo com nenhum partido para governar. A última pesquisa do Instituto Metroscopia, publicada pelo jornal El País, prevê 45,4% dos votos para o PP e 30,9% para o PSOE, enquanto o levantamento do instituto Sigma Dos, publicado pelo jornal El Mundo, dá aos conservadores 47,6% e aos socialistas 29,8%.

Desilusão

As principais razões para o desencanto dos jovens espanhóis seriam a crise financeira e o desemprego juvenil, que alcançou uma taxa de 45%, segundo dados da agência de estatísticas da União Europeia, Eurostat. Entre a população em geral, o desemprego está em 21,5%, o que já um recorde no país nos últimos 15 anos, e a economia estagnou no terceiro trimestre do ano .

Segundo analistas, os socialistas espanhóis pagam não só pela crise, mas também pelas medidas tomadas para tentar remediá-la. "Foi preciso fazer um ajuste para que o país não ficasse em risco de sofrer uma intervenção", disse César Luena, secretário de Organização da ala jovem do PSOE, referindo-se ao congelamento das aposentadorias e à redução dos salários do setor público, implementados por Zapatero em maio do ano passado.

Varinha Mágica

Luena diz que há uma premissa errada entre os jovens de que "uma mudança de partido no governo solucionará, de repente, todos os problemas com uma varinha mágica". Ele reconhece, no entanto, que há uma desconfiança dos jovens em relação aos socialistas. "Fracassamos com eles em quase todas as coisas em que podíamos fracassar."

Do outro lado, o presidente das Novas Gerações do PP em Madri, Pablo Casado, diz que seu partido representa a "liberdade" e "a maioria dos jovens espanhóis é do Partido Popular, ainda que não o saibam".

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Homem dorme no chão ao passar a noite na Praça da Catalunha durante protesto em Barcelona, Espanha, em 13/11/2011
'Longo prazo'

Marcos Roitman, professor de Estrutura Social Espanhola da Universidade Complutense de Madri, concorda que a crise é fator determinante para a aparente mudança de tendência política entre os jovens.

"Com uma juventude apática e despolitizada, é normal que os primeiros prejudicados pela crise sejam aqueles que estão no poder", disse ele à BBC. Roitman atribui parte do sucesso do PP à estratégia de longo prazo do partido de centro-direita. "Ele foi menos sectário, teve uma perspectiva mais inteligente."

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