Jornalistas italianos fazem greve em protesto por proibição de escutas

Analistas dizem que há explosão de cobertura com base em gravações secretas, mas, para jornalistas, premiê só quer se proteger

BBC Brasil |

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Jornalistas italianos realizam nesta sexta-feira uma greve em protesto contra uma proposta de lei que restringe o uso de escutas telefônicas. A proposta do primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, limita os direitos da polícia e de promotores de instalar escutas e gravar conversas telefônicas.

Além disso, a proposta também prevê multas para jornalistas que publicam transcrições de conversas gravadas. Berlusconi afirma que é preciso tornar a lei mais dura para proteger a privacidade dos italianos.

A maioria dos analistas concorda que está ocorrendo na Itália uma explosão de relatos da imprensa baseados em escutas telefônicas e gravações secretas, mas os jornalistas afirmam que o primeiro-ministro quer proteger a si próprio e seus aliados.

"O objetivo real dessa lei é evitar a divulgação de casos judiciais que tenham alto impacto político, aqueles que podem gerar e têm gerado constrangimento", disse o presidente do Sindicato dos Jornalistas da Itália, Roberto Natale.

Bancas vazias

De acordo com o correspondente da BBC em Roma David Willey, as bancas de jornais estavam vazias nesta sexta-feira, exceto por um ou dois jornais de direita, como o Il Giornale - jornal cujo dono é o próprio Silvio Berlusconi.

A agência nacional de notícias da Itália, a Ansa, parou de transmitir seus serviços, assim como a Reuters em italiano. A Rai, emissora estatal de rádio e TV, diminuiu significativamente seus serviços de notícias. No entanto, os jornalistas que trabalham nas três emissoras comerciais de televisão de propriedade de Berlusconi não participam da greve.

Algumas organizações internacionais de notícias, como a Repórteres Sem Fronteiras, também manifestaram apoio à greve e descreveram a proposta de lei como autoritária. Magistrados italianos também alertaram que a lei proposta por Berlusconi, que ainda precisa ser aprovada na Câmara baixa do Parlamento italiano, pode restringir a luta contra a máfia, o terrorismo e a pedofilia.

Autorizações judiciais

Segundo David Willey, o Judiciário italiano atualmente autoriza 100 mil escutas telefônicas oficiais por ano, 20 vezes mais do que na Grã-Bretanha e 60 vezes mais do que nos Estados Unidos, por exemplo. O correspondente da BBC afirma que jornalistas italianos dependem do vazamentos dessas escutas, geralmente feitos por magistrados, para uma grande parte de suas reportagens sobre crimes. A proposta de lei imporia sanções pesadas em jornalistas, editores de jornais e jornais que desafiarem a proibição.

Por outro lado, transcrições de conversas telefônicas gravadas iniciaram uma série de escândalos envolvendo Silvio Berlusconi, incluindo a alegação de uma garota de programa que disse ter dormido com o premiê italiano. Recentemente as escutas telefônicas vazadas para a imprensa italiana também levaram a acusações de corrupção contra a agência que atende vítimas de desastres no país.

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