Jornalista francês denuncia pedófilos que entrevistou

Um jornalista francês que decidiu revelar à polícia a identidade dos supostos pedófilos que entrevistou em uma reportagem para a TV está provocando controvérsia em relação à proteção das fontes jornalísticas.

BBC Brasil |

A reportagem, feita com uma câmera escondida, será exibida na noite desta terça-feira no programa Les Infiltrés (Os Infiltrados, na tradução literal), do canal estatal France 2.

A matéria permitiu a prisão de 22 supostos pedófilos e detentores de imagens de pornografia infantil na França e um no Canadá.

Para atrair os supostos pedófilos, o jornalista Laurent Richard, chefe de redação do programa Les Infiltrés, fingiu, em salas de bate-papo na internet, ser "Jéssica", uma garota de 12 anos.

Método

Richard filmou os encontros com diversos homens, entre eles um sexagenário, um parisiense de 26 anos e um empresário de 35 anos que confessou abusar de sua filha de cinco anos.

As vozes dos entrevistados foram alteradas e seus rostos não aparecem na reportagem, que levou cerca de um ano para ser realizada.

"Quando eu disse que era jornalista e que estava com um câmera, eles não fugiram e aceitaram falar", afirma Richard.

Ele também fingiu ser um pedófilo para entrar em contato com redes que trocam imagens de pornografia infantil. Nesse caso, as pessoas não sabiam que estavam sendo entrevistadas.

O documentário sugere que os colecionadores entrevistados seriam estupradores de crianças e estariam "em atividade" há anos.

Para justificar a divulgação das informações à polícia, Richard diz ter feito "o que todo cidadão deve fazer" em razão da "gravidade dos fatos" descobertos.

"Quando detemos informações que podem impedir tentativas de corrupção de menores ou o estupro de crianças, é normal levar o caso à polícia", afirma.

A lei francesa define como cúmplice qualquer testemunha de atos criminosos contra crianças.

Debate

Mas o assunto vem causando polêmica e alguns jornalistas acusaram a equipe de reportagem do programa de trabalhar como "auxiliares da polícia".

O código de deveres da profissão, uma declaração de princípios, afirma que "um jornalista digno desse nome não confunde o seu papel com o de um policial".

O secretário-geral do Sindicato Nacional dos Jornalistas da França, Dominique Pradalié, declarou "estar escandalizado" e afirmou que "os jornalistas não devem divulgar suas fontes".

Hervé Chabalier, presidente da agência Capa, que produziu a reportagem, disse que existem circunstâncias excepcionais que obrigam os jornalistas a abrir exceções em relação ao sigilo de suas fontes.

Chabalier afirma que a equipe de reportagem cumpriu a lei, que prevê penas de prisão e multa para quem tiver conhecimento de violações sexuais de menores e não informar as autoridades.

Na França, a proteção de fontes jornalísticas pode ter exceções, que devem ser avaliadas por um juiz.

"Nenhuma lei prevê que o jornalista deva denunciar criminosos por sua própria iniciativa", escreve o jornal Le Monde.

Leia mais sobre França

    Leia tudo sobre: frança

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG