Ivan Lessa: Um milhão de amigos? Aqui, ó!

Segundo o cancioneiro de nosso Roberto Carlos, esse o número de amigos que ele gostaria de ter. Um milhão.

BBC Brasil |

Prossegue desejando ainda bem mais forte poder cantar. O intérprete, pelo menos à época, queria também um vento forte e levar seu barco no rumo norte.

Eu achava mais lógico, e até aceitava com mais naturalidade, quando Roberto Carlos se dizia estar apaixonado pela namoradinha de um amigo ou que queria ser aquecido num certo inverno e que o resto fosse todo para o inferno. O Rei, como é chamado, me parecia mais humano, mais gente, bicho. Depois começou a chamar a atenção de Jesus Cristo se dizendo estar ali onde estava.

O que ele queria com Nosso Senhor, nunca ficou claro. Em todo caso, a questão fica para os exegetas de nosso repertório popular.

O que me impressionou mesmo foi querer ter um milhão de amigos. E o número de pessoas que repetia cantando o desejo a meu ver absolutamente inadmissível. O que fazer com um milhão de amigos? Em que esquina jogar basquete de bolso com eles? Qual o bar que abriria suas portas para servir chope gelado ou mesmo água Lindóia para o celebrado cantor e sua turma? Partindo do princípio de que haja algum bar em algum lugar do mundo que tenha mesas, cadeiras, chopes e refrescantes nessa quantidade brutal.

Brutal é a palavra-chave. Um milhão de amigos é uma brutalidade. Mesmo agora nestes dias engordados em tudo e por tudo graças à cibernética. Aí estão os chamados sítios de comunicação social distribuindo certificados de amigo como se fossem pãezinhos quentes, para empregar uma expressão muito comum nessas bandas informatizadas. Facebook, My Space, Twitter, todos esses, e outros menos botados (é botados mesmo e não "votados") facilitam a cidadãos do mundo inteiro - podemos, com propriedade, chamá-los de "mundanos" - o acesso a uns e outros. Há pouquíssimo rigor na escolha desses tais de "amigos". Basta preencher aqui e ali, dar um mínimo de dados e, pronto, aí está uma amizade feita, selada, sedimentada. Nem sempre foi assim.

Robin Dunbar, professor de antropologia evolucionária na Universidade de Oxford, sustentou outro dia mesmo em discutido programa de rádio aqui da BBC que, ao que parece, o limite máximo de amigos que uma pessoa razoavelmente normal é capaz de manter não ultrapassa o número de 150. O ilustre chegou a escrever um livro a respeito. Possível que tenha vendido 128 exemplares apenas, uma vez que o assunto não é dos mais interessantes e que só 128 de seus 150 amigos houveram por bem comparecer com as librinhas necessárias para levar a obra para casa. Com dedicatória denotando intimidade, evidentemente.

De nosso Rei, o Roberto Carlos, já devo ter deixado claro que em nada compartilho de seu desejo de algumas décadas. Desse professor, insisto na minha tese, que jamais transformarei em livro e mal consigo botar de pé em forma de croniqueta, de que é totalmente impossível ter e manter mais do que 10 amigos. E não digo que seja de uma vez só. Vou mais longe, distante que sou, e argumento que são 10 amigos ao longo de toda uma vida de, digamos, apenas para citar um número redondo, 70 anos.

Conhecido é um papo totalmente diferente. Conhecido a gente pode ter que não acaba mais. Um milhão de conhecidos também é demais. Agora, uns 50 ou 60, talvez. Muito provável. Não valem as amizades proclamadas depois de meia-noite, de porre, em meio a um abraço forte e a boca mole puro bafo de onça.

Numa festa de aniversário, quando a vida era inculta e bela, e tudo eram rosas e seus derivados, consegui reunir em casa, com a permissão de meus pais, 7 amigos. Os doces e o bolo mal deram para cumprir seu dever de botá-los para ir lá fora, vomitar e voltar para comer mais. Além do mais, o homem do cinema em casa, encarregado de passar os filmes mudos do Gordo e do Magro, era desastrado, as cópias estavam sempre queimando e, sou capaz de jurar, estava meio alto, mesmo sendo 4 horas da tarde e década de 40.

Com isso perdi uns bons (ou melhor, maus) 4 amigos. Amigo do peito não liga se não der para levar uns brigadeiros para casa e se o filmeco exibido no lençol Santista estiver em péssimas condições. Amigo do peito fica sendo isso que o nome indica - do peito - por um mínimo de 5 ou 6 meses. Que é o tempo que um amigo deve durar. Depois vão se roçar nas ostras e nunca mais ouvimos falar deles ou deles nos lembramos.

Amigo é para essas coisas. Para não encherem o saco e nos deixarem em paz, ora, pombas!

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