Ivan Lessa: O pior do mundo

Fulano de Tal é o pior goleiro do mundo. Lembro direitinho de ter lido isso numa coluna de um antigo colunista esportivo carioca.

BBC Brasil |

Não dou o nome do indivíduo em questão porque discordo e tenho medo de pegar pela proa um processo.

O pior goleiro do mundo, no futebol profissional, ao menos em minha modesta e canalha opinião, foi o Odair, do Canto do Rio, que cercou 14 frangos num jogo contra o Vasco da Gama em 1948. E isso lá em Niterói, quase que juro. Não creio que Odair tenha persistido por muito tempo na inglória posição e profissão. Deve ter se formado como torneiro mecânico, alguma coisa assim, que não tivesse, a 100 metros de distância, sequer a possibilidade uma bola de futebol.

Lista de piores que não as de desportistas, há outras mais fáceis de fazer ou de encontrar, na internet. Filmes, por exemplo. Googleiem aí e confiram. É de dar água na boca e lágrimas nos olhos de tanto rir. Gabo-me de ter visto mais de metade dos relacionados. Pior ator ou atriz do mundo é mais difícil, dado o seu caráter subjetivo. Ocorre-me o nome de Troy Donahue entre outros. Resta mesmo é chamar, ou xingar e esbravejar, numa hora de exaltada irritação, alguém por isso ou aquilo outro. Como quando assistindo a um jogo de futebol. Ou, e chego ao busílis, uma partida de tênis.

Os britânicos, mas podem ler "ingleses", patrocinam um dos torneios mais prestigiados no mundo do tênis. Wimbledon. Proliferam ainda, por toda a extensão destas ilhas, magníficas quadras. De saibro tratadíssimo ou grama impecável. No entanto, desde 1936, quando Fred Perry ergueu a taça de campeão, que um cidadão inglês, ou, vá lá que seja, britânico, não ergue nada, a não ser expectativas grandiosas e descabidas de uma plateia danada de chauvinista. Vide, ou evitai de ver, Tim Henman e Andy Murray.

Uma coisa parece que os britânicos conseguiram, ao menos segundo a redação desportista do jornal Daily Telegraph: ter o pior jogador profissional de tênis do mundo. E eles dão o nome com todas as letrinhas: Robert Dee, de 23 anos, oriundo da cidadezinha de Bexley, no condado de Kent. O enfezado diário mata a cobra e mostra o pau. Lá esteve, em sua edição de 23 de abril de 2008, a seguinte manchete: "O pior jogador profissional de tênis vence enfim uma partida." Nota seguida de "Sensação britânica - o pior do mundo". Que foi parar nos tribunais de Justiça.

Robert Dee, o pivô da história, não tardou em despachar um saque letal: processo neles. Depois de conseguir uma lista com 30 pedidos de desculpas e auferir de outras publicações que entraram na perigosa quadra alguns milhares de libras em perdas e danos, o tenista em questão passou a argumentar em juízo que as reportagens (foi mais de uma, o Telegraph deitou e rolou) sugeriam que ele, "de forma insensata e pouco realista insistia em prosseguir numa carreira profissional que era pura perda de dinheiro e fadada ao fracasso."
O Telegraph, acrescentou aos autos do litígio o dado de que Dee perdera 54 partidas internacionais em seguida, igualando-se assim a outro profissional, este guatemalteco, que também igualou o recorde, com a única diferença de que finalmente ganhara um set, ao contrário de Dee que perdeu 108 sets, também em seguida.

Robert Dee argumenta que, como não tinha um world ranking, ou classificação mundial em 2008, não poderia ser considerado o pior do mundo.

O Daily Telegraph está levando a coisa a sério. Mesmo. Está disposto a chamar para depor a seu favor algumas testemunhas profissionais de renome, como Boris Becker e John Lloyd.

Os juízes, de linha ou peruca branca, prosseguem examinando o empolgante - enfim! - litígio.

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