Ivan Lessa: Como ser britânico

Eu vivo contando vantagem. Consolo de quem já entrevê, logo ali, depois de dobrar a esquina, o crepúsculo.

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É assim mesmo. Tudo bem. Aproveitar e tirar uma casquinha nos bobos. Os bobos acham formidável uma porção de coisas que nós, neste apagar das luzes, sabemos absolutamente tolas, fúteis, inúteis.

Por exemplo: meus conterrâneos exilados, companheiros de diáspora. Descobri agora, graças às artes das pesquisas informatizadas da BBC, que somos tidos pelos britânicos como o segundo povo mais bonito do mundo, perdendo apenas para os americanos e ganhando dos italianos, dos franceses e deles mesmo, os ilhéus que me cercam, que ficaram num desairoso sétimo lugar.

De posse deste dado precioso, brasileiro que sou, inda que velhusco, pavoneio-me diante do espelho, qual a rainha má da Branca de Neve, e faço a pergunta adaptada para o meu embalado avanço anos afora: "Espelho, espelho meu, existiu alguém, lá pelos anos 60 e 70, mais bonito do que eu?" E o espelho, possivelmente feito na Coreia do Norte (nem se classificou na pesquisa da BBC), responde com seu maroto sotaque oriental: "Existiu, sim. Quase todo mundo. Chato, hem, boneco?"
Viver é aprender a aceitar desconsolos. Olho em torno pelos bairros londrinos em que vicejam, impávidos colossos, os belos brasileiros. Pura verdade. A BBC e seus pesquisados sabem das coisas. Que gente bonita, sô! E fico a pensar no esplendor físico que deixei para trás, aquelas glórias corpóreas, de todos os sexos, que sempre me cercaram e eu, grande paspalhão, mal notei.

Vou às forras à minha maneira. Como nós, preocupados em embelezar a paisagem local com nossas prendas corporais, e limpando as mesas dos restaurantes com altaneiro ar de desdém, como nós (como no bom sentido, né?), ia eu dizendo, antes que um espelho me desviasse do caminho áspero de minha prosa, como nós (repito e insisto) perdemos uma boa parte de nosso tempo aqui em estado de adoração diante de espelhos, não ligamos muito às coisas do espírito.

Nisso que dá ser belo. Descuida-se da meditativa porção Paulo Coelho de nosso "estar no mundo". Partimos então para disputas pouquíssimo importantes. Como ostentar o tempo vivido em Londres como se esse fosse um estandarte de escola de samba ou Oscar por melhor e mais formoso desempenho no auto-exílio.

"Eu já estou aqui há 7 anos", diz Gilcimar.

"Eu há 8 anos e 4 meses", rebate Vaginaldo.

"9", chuta Waldsonette.

"10", rebate Herpesina.

Perda de tempo. No duro, no duro, ocupados e ocupadas que estão em ostentar suas formosuras para uma cidade a se roer de inveja, não se dão conta de que o importante não é dar os ares de suas graças a Londres, mas de Londres - ou do Reino Unido inteiro - aspirar os ares das graças que tem a oferecer. Ou, pelo menos, de que se trata tudo isso.

Beleza não põe mesa, conterrâneos. Limpá-las, sabeis, é preciso e até que não pagam mal. Necessário também, porque com esses privilegiados dotes todos vêm certas obrigações, tais como ser educado e, ao menos, fingir que apreendeu certas noções básicas de britanismo. Uma questão de reciprocidade. Força, pois, decorar um ABC básico de Reino Unido, Inglaterra ou Londres.

A - Convite para um jantar às 8 da noite quer dizer 10.

B - O chá das 5 é às 4 e meia.

C - O ministro para questões ligadas à imigração, Phil Woolas, já deixou claro que os recém-chegados aqui devem logo entender o fetiche de fazer filas e o protocolo que envolve esse britânico processo.

D - Sempre que lhe elogiarem qualquer vestimenta, de chapéu de cangaceiro a sandália havaiana, mentir dizendo que foi comprada na liquidação.

E - Demonstrar nervosa torcida sempre que um britânico for indicado a qualquer tipo de Oscar. Mostrar-se alegre e logo em seguida acrescentar, "Pena que não vai ganhar".

Estas as primeiras letras da cartilha. Catei-as nas folhas que leio. As seguintes virão a seu devido tempo. Como costumavam chegar as coisas aqui até há alguns anos: em seu devido, em seu preciso tempo.

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