Ivan Lessa: Chutando chapinhas, garrafas e barris

Quem dentre vós, pergunto eu, e sem retórica, não deu um chute numa chapinha? Homem ou mulher. Adulto ou criança.

BBC Brasil |

Chutar chapinhas é o que distingue o ser humano da paca. E outros animais irracionais.

Não há o menor objetivo em chutar chapinhas. Chutamo-las apenas pelo fato de, nesta conjunção misteriosa da vida, encontrarmo-nos, em certo dia e lugar, diante de uma chapinha no chão. Podemos dar no máximo dois chutes numa chapinha. Não mais. Uma dessas leis, desses protocolos, não escritos. A chapinha pode ser de refrigerante ou bebida alcoólica. Local ou estrangeira. Não chega a ser um passatempo. É condição humana. Ninguém, que eu saiba, organizou o chutar de chapinhas em esporte. Que é o certo. Não há, arrependido ou não, sincero ou maroto, um Tiger Woods do chutar chapinhas. Trata-se de uma das coisas mais platônicas que existem na face da Terra.

Não contava eu, no entanto, com os britânicos. Ninguém conta com os britânicos. Essa sua graça que restou. Apesar desse tempo todo por aqui só fui tomar conhecimento, nesta Páscoa, de que há uma tradição no condado de Leicestershire, na Inglaterra, de chutar garrafas. Antes de me informar mais, pensei eu, numa das ruas do bairro, chutando uma chapinha (sem a cortiça) de cerveja Tuborg: "Qual, só mesmo os ingleses para chutar garrafa junto com a chapinha. Depois reclamam quando perdem Copa do Mundo".

Fiz o que se deve fazer em horas de perplexidade. Consultei uma ferramenta de busca do raio do computador. Lá encontrei todos os dados. No citado condado, toda segunda-feira que se segue à Páscoa, os cidadãos da aldeia de Hallaton entram em feroz combate com os habitantes da aldeia vizinha de Medbourne. Há séculos, como tudo mais nestas ilhas.

A rivalidade entre os aldeões de Hallaton e Medbourne (bons nomes para cerveja ruim) continua firme. Há um senão, neste Reino Unido onde os senões gozam de imerecida popularidade. Não é bem uma garrafa que eles chutam. É um keg, ou seja, um pequeno barril. Destituído de chapinha. Juro no escuro. Mais precisamente, três kegs, um de sólida madeira e dois, aí sim, de cerveja.

A finalidade é mover os barris, seja lá por que método for, chutando inclusive, como num jogo do West Ham, até um dos dois rios mais próximos das aldeias, ambos situados a um quilômetro e meio um do outro. Estes rios, que permanecerão anônimos, por uma questão de pura birra de minha parte, constituem as fronteiras naturais de Hallaton e Medbourne.

São três tempos, ou rodadas, de chutar, empurrar, esmurrar, o que bem entenderem os saudáveis aldeões de Leicestershire. Um tempo para cada "garrafa" ou keg. Há três regras apenas na contenda: não vale arrancar os olhos do adversário, não vale se estrangularem e não vale impor regras. Esta última é importantíssima e, dela, tirei minha comparação ao chutar de chapinhas. Todas as comparações começam e param aí.

A chutação, chamemo-la assim, é tida nos meios esotéricos, que os há em profusão no Reino Unido, como uma das glórias representantes da conquista humana na face deste globo que cisma em não se aquecer.

Relembro algo que, no fundo, todos sabem: o caos também é necessário. Aprofundando-me ainda mais: só o caos é necessário.

Depois de, evidentemente, chutar chapinhas.

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