Ivan Lessa: Beijinhos e carinhos héteros

Não, eu não comemorei nem o 31 de março e nem o 1º de abril. Intrigas de minha oposição que cisma, porque cisma, de todo ano vir de golpe pra cima de mim, me derrubar, cassar meus direitos, aquelas belezas todas que passaram e não se fala mais nisso, mesmo o que pegaram um dinheirão com a história, ou História, com maiúscula.

BBC Brasil |

Deixemos para lá, conforme o padrão estabelecido. Somos um povo bom, manso, engraçado, cheio de bossas e troças. Aquele papo. Verdadeiro, como se sabe.

Tanto é que, mais uma vez, tive a confirmação de nossa cordialidade - mais: nossa amorosidade - mediante uma leitura atenta e algo surpresa de interessante texto publicado no sítio do Globo Online. O título já dizia tudo: "Cariocas descolados (e héteros) se rendem ao beijo no rosto como forma de cumprimento".

Sim, é verdade, meio longo demais. A estratégia jornalística, no caso, é chamar a atenção do leitor para o resto do texto todo que se segue.Foi o que se deu comigo. Funciona pois.

Antes do primeiro parágrafo (jornalista gosta de chamar de "nariz de cera", nunca entendi. Nem a profissão, nem a expressão), eu já estava ferrado. São enumerados alguns casos de cumprimentos entre homens trocados com... beijinhos (as reticências são importantes). Tudo "heterossexual convicto", explica o autor. Aí veio meu primeiro pé atrás: se o camarada em questão não for convicto de sua sexualidade então não precisa ficar no beijo, ora essa! Vá em frente, cara! Acredita nela! Digo, nele, no outro, no beijado. Manda brasa!
A matéria dá um aparte e chega até aqui na Inglaterra onde um atacante do Newcastle ganhou um beijo de um colega por ter marcado o gol da vitória de seu time. Quer dizer, o fenômeno, está implícito, já corre mundo. Não são só os franceses.

Volta-se o jornalista, o excelente Jefferson Lessa (por sinal que não é parente meu, mas, apesar disso, tome lá um beijinho, meu querido, digo, meu caro), para um caso que deu o que falar e ilustra os parágrafos em questão: Zagallo que, e vou citar, "tacou um bacio na veneranda bochecha do nonagenário João Havelange, ex-presidente da Fifa". Segundo consta, Zagallo recusou-se a comentar o fato. O que me parece meio maroto, mas deixa pra lá.

Pedro Bial, personagem que não sai das folhas ou da televisão, um consultor geral para tudo, devido sua intimidade com casas de Big Brothers, não deixara há um mês de dar seu julgamento ou veredicto para a revista Playboy. Lá está para quem quiser ir de ferramenta de busca:
"Meus amigos héteros mais íntimos não gostam de selinho, só beijo no rosto ou abraço."
Eu não sabia o que era "selinho". O Houaiss não consignava. Googlando descobri que era o mesmo que "bitoquinha", um cumprimento com tocar de lábios superficial e rápido. Mais ou menos, acho, aquela onomatopeia "mwuah, mwuah" que as mulheres trocam nos EUA e por aqui, aproximando de leve suas faces umas nas outras. Tem que ser duas vezes. Para não brigar.

E os franceses? E os italianos? E até os tão machistas argentinos? Há séculos que trocam selinhos e bitoquinhas e nunca ninguém disse nada. Enfim civilizamo-nos, somos mundanos, uns Eikes Batistas da afetuosa demonstração entre héteros.

Uma coisinha me invoca: mas e os homossexuais? Vão ficar paradões aí sem fazer nada? A época de ficar se chamando de "querida" e falando em "audácia do bofe" já era. Até o Ricky Martin, que todos julgavam um tremendo mulherengo, saiu do armário outro dia mesmo distribuindo desses beijinhos de estalar. Os brasileiros estamos em vigorosa ascensão mundial e temos que abrir e mostrar caminhos e não seguir modismos importados.

Eu acho que eles deveriam partir logo para os "finalmentes" e, ao se cumprimentarem, lenta e pausadamente, os olhos semicerrados, cair de boca uns nos outros enquanto as mãos... Bem, o resto é com a imaginação de cada, digamos assim, non-hétero.

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