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Ivan Lessa: USA Day in UK

Eu tenho uma paixão física pelo prefeito de Londres. O Boris.

BBC Brasil |

Boris Johnson. Até há bem pouco tempo não tinha aqui essas bobagens de prefeito como cargo eleito, não, senhor.

Tinha, e ainda tem, o tal de lorde Prefeito, com indumentárias de segunda-feira gorda de Carnaval, e funções à altura de quem as veste neste momesco período do ano. Quem não tem porta-estandarte ou puxador-de-samba, se sacode como pode.

Depois, com a chegada da informática e a ida a uma ou outra invasão nas e das Arábias, eles, os cidadãos britânicos londrinos, cismaram de se trancar numa cabine indevassável e, mediante uso de voto universal, exercer o sagrado dever de eleger um prefeito. Um prefeito daria um nome mais sério à cidade, além de criar um montão de empregos e encher de assuntos os jornalistas que vivem em busca de uma razão plausível para exercer sua risível profissão.

O primeiro prefeito eleito chamava-se Ken. Claro que se chamava Ken. Ou era Ken ou Kevin. Tinha porque tinha de ser um nome bem lugar-comum, um nome de piada local, ainda cheirando ao azeite e ao vinagre com que se banha o sempre popular fish and chips (pense em termos de peixe com fritas envolto em jornal de ontem). O sobrenome era Livingstone, o que dava uma graça inexplicável, um je ne sais quoi, a alguém já batizado legalmente como - qui, qui, qui! - Ken.

Não cessava aí a diversão. O homem era fanho. Vou repetir sílaba por sílaba: fa-nho. Ou ainda, fa-nho-so. É isso mesmo. Feito aqueles de anedota hoje possivelmente, como tudo que é divertido, politicamente incorreto. Quando eu podia (e eu sempre dava um jeitinho) encaixava o danado do Ken Livingstone numa dessas histórias locais que me meto a contar.

Todo mundo pensava que eu estava querendo fazer graça. Que não tinha prefeito de terno e gravata coisa nenhuma, muito menos fanho, fanhoso ou roufenho. Que tudo não passava de mais uma criação de minha mente malsã. Pois o homem existiu, existe e só os muito ingratos ou patetas não se lembram de sua passagem pela prefeitura não-ornamental de Londres. O que ele fez? Qual o seu legado? Ora, pipocas, o homem foi fanho durante 8 anos seguidos. De 4 de maio de 2000 a 4 de maio de 2008. Algum prefeito do Rio, de São Paulo ou de Porto Alegre pode dizer o mesmo? Duvideodó.

Isso, no entanto, é hora da saudade de minha parte. Vamos, como uns bons 28% da humanidade, à realidade de nossos: o novo prefeito. O Boris. Boris Johnson. Minha paixão física por ele. Muitos dirão que estou passando por uma péssima véspera do Dia dos Namorados local, que ocorre agora neste gordo domingo de Carnaval. Que eu não peguei bem o espírito da coisa. Nada disso. É paixão física mas por um viés platônico. É aquele jeitão do Boris Johnson. Só isso.

Um perfeito prefeito como um São Bernardo. Com uma peruca loura enfiada no cocuruto. Acoplada a um rosto impagável e de cuja boca ainda se pode ouvir - entre a baba e a linguona vermelha balançando - um daqueles belos sotaques de quem frequentou os melhores colégios e meios. Um sotaque em extinção.

Deus abençoe Boris Johnson, que torna menos sofrida a vida nesta capital cada vez mais multiglobal em seu pior sentido (e existirá um "bom sentido"?). Boris vai prefeiturizando uma cidade imprefeiturizável, como toda grande cidade que se preze. Lixo, trânsito, energia, crime, imigrantes ilegais, tudo isso se resolve como sempre se resolveram essas coisas: deixando pra lá e ir cuidando da reeleição.

O importante é não ter ideias. Não cabe a prefeito de cidade alguma ter ideias. Ideia é coisa de pobre de espírito. Prefeito londrino tem que ser tipo. Em vosso caso, doce Boris, lembrar um São Bernardo e despertar nos passantes a vontade de chegar perto e fazer festinha na cabeçorra loura. Ficar então curtindo Boris satisfeito com a língua de fora balançando pra cá e pra lá.

Nunca, mas nunca mais, meu bom Boris, convoque a imprensa para dizer que pretende criar um Dia dos Estados Unidos (USA Day) aqui em Londres. Em todas as partes do mundo faz sempre Dia dos Estados Unidos. Perguntai ao presidente Karzai, do Afeganistão, perguntai aos brasileiros que fizeram fila para ver, ouvir e tentar pegar em Beyoncé ou Alicia Keys.

Além do mais, Nova York tem dias reservados para paradas anuais de tudo quanto é comunidade. A brasileira, inclusive. Da Inglaterra ou do Reino Unido? Absolutamente nada. Agora pare com essas bobagens, Boris, e faça seus olhos grandes, doces e úmidos para nossas objetivas.

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