Ivan Lessa: A Índia obra

Talvez tenha sido O Fio da Navalha. Primeiro o filme, com o Tyrone Power, depois o romance de Somerset Maugham.

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Das grandes influências em minha vida de adolescente e, confesso, até mesmo depois. Vou mais longe no tempo: influencia até hoje. Sem sentimentalismos tolos, sem garotadas. Refiro-me à Índia, com seus mistérios e encanto, com sua cultura secular. Pode ter começado com um galã de cinema e um autor (injustamente) tido como menor. Fato é que passei a me interessar por tudo que dizia respeito ao país-continente. Entre minhas leituras fui passando quase que sem sentir dos gibis aos tomos mais pesados. Menos super-homens e mais homens com agá maiúsculo. Se li Platão e Plutarco, Shakespeare e Molière, em traduções razoáveis (mais tarde fui lê-los no original, para meu próprio gáudio), não deixei de lado em absoluto o Ramayana, o Mahabharatta e o Bhagavad Gita (que aprendi a chamar, conforme aprendi, de Gita apenas). Sim, li tudo em edições de bolso americanas, mais acessíveis ao meu poder aquisitivo. Na minha sede de indianismo, procurei guias entre ensaístas e historiadores. Não havia, no bairro em que morava, a Copacabana dos anos 40 e 50, um único companheiro que cultivasse a mesma fascinação que eu. O remédio e a salvação, como sempre, estavam entre os livros, entre os autores. Alguém de mais peso que o bom Somerset Maugham. Logo encontrei um mestre, e quase digito guru. O dr. Malise Ruthven, cuja obra focaliza os aspectos mais diversos da tão diversa civilização. Dou o nome e recomendo. De sua pena brotaram, e em mim vicejaram, obras como O Fundamentalismo: Uma busca por seu Significado, o Atlas Histórico do Mundo Islâmico. Para não falar em suas inúmeras contribuições para os periódicos acadêmicos que eu, algo pretensiosamente, assinava ou ia ler na biblioteca da Embaixada Americana ou da Cultura Inglesa. Não me escapou também à curiosidade a indústria cinematográfica indiana, embora difícil encontrar, na época e no Brasil, representantes à altura desta arte que dominam à perfeição. Hoje, aqui no Reino Unido, é uma festança cada chegada à biblioteca do bairro e sua coleção de DVDs. Havia, no entanto, e em razoável quantidade, os clássicos indianos da literatura. Li muito Rabindranath Tagore (Prêmio Nobel de Literatura em 1913) e, sei que estou sendo leviano, admirava muito o jovem e brilhante ator Sabu. Hoje em dia, no entanto, acompanho pela mídia o extraordinário sucesso do país e cultura a que, um dia - serei franco - ambicionei fazer parte. Um ashram menor constava de meus sonhos. Bastava-me um guru de segundo time. Eu nem precisava levitar muito alto. Meio metro acima do solo me bastariam de sobejo. Esta semana mesmo fiquei sabendo que a Índia vai disponibilizar mais de US$ 500 milhões para projetos de petróleo, mineração e álcool no Brasil. Desnecessário lembrar os avanços tecnológicos indianos no terreno informático e sua notável contribuição para o mundo da ciência. Que caminho fizemos os três, Tyrone Power, eu e a Índia, penso diante de meu computador possivelmente de origem indiana. Por este motivo me espantei com o pequeno ensaio assinado por meu mestre, dr. Malise Ruthven, e publicado agora mesmo, neste início de maio, no prestigioso New York Review of Books. Fui logo me chocando com o título de seu texto: Excremental India. Sequer ouso tentar uma tradução. O guru acadêmico expõe alguns dados que me marcaram quase tanto quanto O Fio da Navalha. Diz ele, logo no primeiro parágrafo, que, segundo a ONU, 55% da população indiana ainda defeca ao ar livre. São 638 milhões de indianos soltando o barro todos os dias para quem quiser ver ou fotografar. Quanto às mulheres, o professor se limita a apontar que a modéstia feminina impede que elas sigam o exemplo dado pelos homens. Obram em partes isoladas da floresta, pudicícia que as expõem à violência e às cobras venenosas. O dr. Ruthven salienta os aspectos nocivos à saúde de todos os que assim se aliviam, sujeitos que estão às desordens intestinais e das vias urinárias. O bem-informado estudioso e professor prossegue em sua argumentação. Li sério até o fim. Admito minha ligeira (apenas ligeira) decepção. Paro e penso. Ou ainda, medito. Erro meu, decepcionar-me. Somos humanos muito humanos e, quem sabe, estercar ao ar livre não é mais natural, melhor para nós e melhor para a fertilidade do solo? Mistérios da velha Índia que perduram até hoje.

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