Israelenses são céticos sobre retomada de negociação de paz

60% dos israelenses não acreditam que o presidente palestino, Mahmoud Abbas, tenha 'intenções sérias' de alcançar um acordo

BBC Brasil |

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A maioria dos israelenses tem dúvidas de que o premiê Binyamin Netanyahu conseguirá chegar a um acordo de paz com os palestinos nas negociações que foram retomadas nos Estados Unidos na semana passada, de acordo com pesquisas de opinião e diferentes analistas no país.

De acordo com a pesquisa de opinião do canal 10 da TV de Israel, 60% dos israelenses não acreditam que o presidente palestino, Mahmoud Abbas, tenha "intenções sérias" de alcançar um acordo de paz e não acham que o processo de paz possa ser bem sucedido. Apenas 22,9% manifestaram confiança no palestino e nas chances de sucesso das negociações. Outros 17,1% disseram que não sabem opinar.

Analistas

A maioria dos analistas locais também manifesta ceticismo quanto às chances de que as novas negociações resultem em um acordo de paz. De acordo com o analista do jornal Yediot Ahronot Shimon Shifer, "esse teatro deve acabar em breve, talvez ainda antes do fim deste mês". "Existe uma grande distância entre o que Netanyahu propõe aos palestinos e a proposta feita pelo [ex-premiê Ehud] Olmert, portanto não vejo possibilidades de que as negociações possam ter sucesso", disse Shifer à radio estatal de Israel.

O primeiro-ministro de Israel já deixou claro que não pretende dividir a soberania em Jerusalém e que deseja manter o Vale do Jordão – um terço da área da Cisjordânia – sob controle militar israelense. Já Ehud Olmert, antecessor de Netanyahu, havia concordado com a divisão de Jerusalém e com a retirada de Israel do Vale do Jordão.

Base do governo ameaçada

Yaron Dekel, analista político da rádio estatal de Israel, afirmou que para chegar a um acordo com os palestinos, Netanyahu terá que abrir mão da base de sua coalizão governamental. "Não acho que ele colocará em risco sua coalizão", disse Dekel.

O principal parceiro de Netanyahu na coalizão atual, o ministro das Relações Exteriores, Avigdor Lieberman, se opõe ao desmantelamento dos assentamentos israelenses na Cisjordânia. Ele ameaça abandonar a coalizão caso as negociações com os palestinos avancem, o que poderia significar o fim do governo atual.

Segundo o jornal Maariv, Netanyahu não conta com apoio para a continuação do congelamento dos assentamentos – condição fundamental dos palestinos para as negociações – em nenhuma das instâncias do governo.

De acordo com um levantamento feito pelo jornal, a maioria absoluta dos ministros se opõe à extensão do congelamento, que deve terminar no próximo dia 26 de setembro. Dos 29 ministros, 21 são a favor da retomada total da construção dos assentamentos após o termino do congelamento.

No Fórum dos Sete – grupo de ministros que toma as principais decisões do governo – quatro são contra a continuação do congelamento. No Gabinete de Segurança – outro fórum importante de ministros – dez dos 15 integrantes apoiam a retomada da construção nos territórios ocupados.

Likud dividido

Dentro do próprio partido de Netanyahu, o Likud, grande parte dos deputados é contra a continuação do congelamento. O deputado Dani Danon declarou que Netanyahu "deve se lembrar qual é a posição do Likud". A ministra da Cultura, Limor Livnat, também do Likud, disse que depois do dia 26 de setembro o congelamento dos assentamentos "não pode continuar de maneira nenhuma".

Yossi Beilin, um dos arquitetos do acordo de Oslo e ex-ministro do governo do trabalhista Itzhak Rabin, declarou que Netanyahu "não está disposto a pagar o preço que o mundo entende que deve ser pago" pela paz. "Netanyahu está muito distante das exigências mínimas dos palestinos e quer paz em condições impossíveis", afirmou Beilin.

Já a deputada Orit Noked, do Partido Trabalhista, que é parceiro na coalizão de Netanyahu, manifestou otimismo. "Acho que Netanyahu decidiu promover uma grande mudança. Bibi (como é chamado Netanyahu) vai se tornar um (Itzhak) Rabin", disse Noked ao site de noticias Ynet, em referência ao premiê israelense que foi assassinado em 1995 quando estava avançando em negociações de paz com os palestinos.

Otimismo

Para o analista do jornal Haaretz Aluf Ben, Netanyahu pode se tornar "o nosso Gorbachev". Ben, que é um dos poucos analistas que manifestam um certo otimismo em relação à possibilidade de sucesso das negociações, afirmou que Netanyahu, pode, como o ex-líder da União Sovietica, Mikhail Gorbachev, se tornar "um grande reformista que colocará um fim ao domínio israelense nos territórios" ocupados.

Para o analista, Netanyahu é o líder político mais forte que Israel já teve em mais de 25 anos e atribui total prioridade às relações com os Estados Unidos. Segundo Aluf Ben, o que o premiê israelense mais teme é o isolamento internacional crescente de Israel e o fortalecimento do Irã.

"A linha que Netanyahu está seguindo é clara: Israel precisa de apoio internacional e suas relações com os Estados Unidos são prioridade máxima, muito acima do que a ideologia da extrema-direita", afirma Ben em artigo no jornal Haaretz. "Quando se encontra com uma exigência incisiva de Obama, ele obedece", conclui o analista.

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