Filhos adotivos de dona do jornal argentino farão teste para determinar se pais verdadeiros estavam entre vítimas de regime militar

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Felipe e Marcela, filhos adotivos da empresária Ernestina Herrera de Noble, dona do jornal Clarín, vão realizar novo exame de sangue para que o resultado seja comparado com o DNA de todos os familiares das vítimas do regime militar da Argentina (1976-1983), segundo informou nesta sexta-feira o advogado dos herdeiros da empresária.

"Eles decidiram se apresentar espontaneamente para um novo exame de sangue e aceitaram que a comparação seja feita com todo o banco de dados do Banco Nacional de Dados Genéticos", disse o advogado Horácio Silva. O banco reúne principalmente amostras de pessoas ligadas aos sequestrados, mortos e desaparecidos durante o regime militar.

Foto de 03/06/2010 mostra Marcela Noble e seu irmão, Felipe Noble, em Buenos Aires. Os dois foram adotados por Ernestina Herrera de Noble, proprietária do Grupo Clarín
AP
Foto de 03/06/2010 mostra Marcela Noble e seu irmão, Felipe Noble, em Buenos Aires. Os dois foram adotados por Ernestina Herrera de Noble, proprietária do Grupo Clarín
A decisão de Felipe e Marcela foi anunciada 15 dias depois que a Justiça determinou o teste "obrigatório" de sangue dos herdeiros do grupo Clarín, o principal da Argentina, atendendo pedido da entidade de direitos humanos Avós da Praça de Maio.

Resultado negativo

Marcela e Felipe foram adotados pela empresária há cerca de 35 anos e já fizeram exames de sangue, com resultado negativo, comparando seus dados genéticos com os de uma família que procura netos sequestrados ainda bebês durante o regime militar.

No entanto, as Avós da Praça de Maio pedem que novo exame seja feito, para fazer a comparação com todos os dados reunidos no banco de DNA. "Comparar com um só período ou uma só família é dar (à empresária) um privilégio que ninguém teve. Estamos falando de dois jovens que foram sequestrados ainda bebês e, como todos os demais, devem ter o direito de conhecer sua verdadeira identidade", disse a presidente da entidade, Estela de Carlotto. Segundo ela, as famílias das vitimas da ditadura esperam "por este momento há quase dez anos".

Escolha dos herdeiros

Segundo o advogado dos herdeiros, eles ainda teriam o direito a recorrer da sentença na Suprema Corte de Justiça, que os obrigaria a novo exame. No entanto, ambos optaram por "esclarecer tudo o quanto antes", segundo Horácio Silva.

"Marcela e Felipe acham que o direito à identidade é uma decisão pessoal, mas diante dessa situação eles resolveram tomar essa iniciativa", disse. Em seu site, o jornal Clarín publicou nesta sexta-feira uma reportagem em relação ao caso com o título: "Oito anos, três exames de sangue e uma perseguição sem antecedentes."

Já o site da agência oficial de noticias, Telam, destacou: "Fontes ligadas ao caso acham suspeita a guinada na decisão dos (irmãos Felipe e Marcela) Noble Herrera de comparar o sangue com todo o banco de dados."

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