Haiti vai às urnas em meio a destroços e abalado pelo cólera

Sinais do terremoto que atingiu o país um ano atrás ainda são visíveis e milhares de pessoas ainda vivem em condições precárias

BBC Brasil |

Eleitores haitianos vão às urnas neste domingo eleger um novo presidente e novos congressistas, pouco menos de um ano após o terremoto que deixou mais de 200 mil mortos, 2 milhões de desabrigados e 90% dos prédios públicos sob os escombros. Os destroços ainda são visíveis no país, e centenas de milhares de pessoas seguem vivendo em abrigos precários e sem higiene, situação que abriu caminho para outra tragédia haitiana: a epidemia de cólera que matou 1,5 mil pessoas nas últimas semanas e que deve atingir estimadas 400 mil pessoas.

AFP
Jude Célestin ganhou o apoio do atual presidente
Nesse cenário, os cidadãos se dividem entre a apatia e a esperança por avanços. O haitiano Wagnel Laurent, professor de inglês em Porto Príncipe, disse à BBC que está otimista, "mas muitas pessoas acham que é impossível" que as eleições tragam mudanças ao Haiti, país com alto índice de percepção de corrupção. Ele próprio não poderá votar, porque perdeu seu título de eleitor no terremoto. E, na lista oficial de 4,7 milhões de eleitores registrados, há muitos nomes de pessoas que não sobreviveram aos tremores de 12 de janeiro.

Disputam a Presidência 19 candidatos, sendo que o apoio do presidente René Préval foi para o tecnocrata Jude Célestin, chefe da empresa estatal encarregada da reconstrução do país.Célestin concorre com a ex-primeira-dama Mirlande Manigat, a principal líder oposicionista, e acredita-se que os dois candidatos levem a disputa ao segundo turno, em 16 de janeiro. Outro concorrente de peso é Michel Martelly, popular cantor haitiano.

Os eleitores vão escolher também 99 deputados e os ocupantes de 11 das 30 vagas do Senado. O correspondente da BBC em Porto Príncipe Mark Doyle relata que a ausência do partido do ex-presidente Jean-Bertrand Aristide pode contribuir para diminuir a legitimidade do pleito. Outra preocupação é com as perspectivas de baixo comparecimento eleitoral. Segundo Doyle, o temor é que uma eventual falta de legitimidade do vencedor provoque distúrbios nas ruas do país e prejudique ainda mais os esforços de recuperação.

As forças de paz no país começaram na sexta-feira a preparar terreno para o pleito, distribuindo material eleitoral pelos postos de votação em todo o país. Enquanto isso, os candidatos à Presidência fizeram seus últimos comícios, concentrando esforços na capital Porto Príncipe, onde está um terço do eleitorado. O vencedor herdará um país destruído, com instituições frágeis, desemprego generalizado e mais de 1 milhão de desabrigados, mas também promessas bilionárias de ajuda internacional, que se seguiram ao devastador terremoto de janeiro. Préval, que está em seu segundo mandato, deixará o poder em 7 de fevereiro.

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