França começa a julgar operador que fraudou R$ 11 bilhões

Jérôme Kerviel é acusado de ter realizado operações irregulares que prejudicaram o banco francês Société Générale

BBC Brasil |

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A Justiça francesa começa a julgar nesta terça-feira o ex-operador de mercado financeiro Jérôme Kerviel, acusado de ter realizado operações fraudulentas que causaram prejuízos de 4,9 bilhões de euros (quase R$ 11 bilhões) ao banco francês Société Générale em 2008.

Kerviel, que ficou conhecido como um dos maiores fraudadores da história, pode ser condenado a até cinco anos de prisão e 375 mil euros de multa (aproximadamente R$ 838 mil).

O julgamento, que deve ir até o dia 25 de junho, é considerado um símbolo do combate à fraude financeira na França.

A fraude foi revelada em 24 de janeiro de 2008 pelo banco, provocando uma onda de choque nas bolsas mundiais.

O presidente do banco na época, Daniel Bouton, chegou a chamar o ex-operador de "terrorista".

O julgamento tentará esclarecer como um pequeno operador de nível médio teria conseguido, sozinho, movimentar somas exorbitantes.

O ex-corretor realizou operações que totalizaram 50 bilhões de euros (cerca de R$ 111 bilhões), mais do que o patrimônio líquido do banco. Kerviel disse que apostava na alta das bolsas europeias, o que acabou não acontecendo, em parte devido a temores de recessão nos Estados Unidos.

'Cassino'

Segundo a acusação, Kerviel fez operações "colossais" sem que a direção do banco tivesse conhecimento dos fatos.

O ex-corretor teria elaborado um sofisticado sistema para dissimular as transações, inserindo operações fictícias no sistema de computadores do Société Générale para cada uma das operações autênticas realizadas, e também falsificando documentos.

"Ninguém poderia ter imaginado que um empregado poderia transformar o banco em um cassino", diz o advogado do Société Générale, Jean Veil.

Kerviel reconheceu ter feito operações fictícias e fraudado os controles de segurança dos computadores do banco para realizá-las, mas insiste que a direção do Société Générale estava a par de suas ações.

Segundo o ex-operador, de 33 anos, sua chefia cobria suas ações porque ele ganhava, até então, dinheiro para o banco.

Kerviel, que comparece sozinho ao banco dos réus, reconhece ter cometido erros e afirma "assumir sua parte de responsabilidade", mas diz que não quer ser o "bode expiatório" do processo.

O ex-operador diz ter várias provas de que o banco estaria a par de suas operações.

Julgamento

Cerca de 40 testemunhas vão depor no julgamento durante as próximas semanas, a maioria convocada pela defesa.

"As transações de Kerviel ultrapassam de longe, tanto pelo número quanto pelos valores, os limites que lhe haviam sido fixados. Elas não poderiam escapar da vigilância da hierarquia, que tinha acesso aos dados informáticos, como 500 outras pessoas do banco", diz o advogado de Kerviel, Olivier Metzner.

Um relatório do Ministério da Economia da França apontou, em fevereiro de 2008, falhas no sistema de controle das operações do Société Générale.

No início de maio, Kerviel publicou livro em que afirma que seus superiores sabiam das operações. "No seio da grande orgia bancária, os traders têm direito ao mesmo tipo de consideração que qualquer prostituta: o reconhecimento rápido de que o dia foi bom", diz Kerviel no livro.

O ex-operador também sugere que o Société Générale teria usado a fraude para desviar a atenção dos prejuízos de 2 bilhões de euros (cerca de R$ 4,4 bilhões) registrados com os subprimes americanos.

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