Filhos de desaparecidos políticos polarizam eleição argentina

Deputada federal e vereador estão em lados opostos na campanha para as eleições presidenciais de domingo no país

BBC Brasil |

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Filhos de desaparecidos políticos durante a última ditadura argentina (1976-1983), a deputada federal Victoria 'Donda' Pérez e o vereador Juan Cabandié estão em lados opostos na campanha para as eleições presidenciais de domingo no país. Pérez e Cabandié são ativistas de direitos humanos, mas pensam de maneira diferente sobre o governo da presidente Cristina Kirchner e sua possível reeleição.

Os dois nasceram na Escola de Mecânica da Marinha (Esma), definida como um dos piores centros de tortura da Argentina, e só conheceram suas verdadeiras identidades biológicas quando eram adultos. Hoje, Victoria Pérez, de 34 anos, é um dos rostos da campanha opositora à reeleição da presidente e Juan Cabandié, de 33 anos, um de seus defensores.

Em entrevista à BBC Brasil em seu gabinete, a deputada, da legenda Libres del Sur, disse que o governo não deve limitar suas ações pelos direitos humanos aos crimes cometidos há 30 anos, durante o regime militar. "Acho que a Argentina promoveu um grande avanço na questão dos direitos humanos. Subimos um degrau, mas temos de subir outro que é entender os direitos humanos a partir de uma visão integral e não de uma parcialidade", afirmou.

Ela disse que apoia decisões do ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007) e de sua viúva e sucessora, Cristina, de adotar medidas que permitiram punir os militares acusados de abusos cometidos naquele período.

"Mas não são os únicos direitos humanos que existem. Somos um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, mas ampliamos a brecha entre ricos e pobres. A Argentina não tem os mesmos planos de inclusão social que funcionam tão bem no Brasil. E nosso índice de inflação é muito mais alto que outros países e castiga, principalmente, os mais pobres."

Segundo Pérez, esses são alguns dos motivos que a levaram a deixar de apoiar, em 2007, o governo atual e a passar para a oposição. "Recuperei a minha verdadeira identidade há seis anos. Mas tenho claro que meus pais estão desaparecidos porque queriam outra sociedade. Uma sociedade mais justa", afirmou.

Os pais da deputada tinham pouco mais de 20 anos quando foram sequestrados e jamais foram encontrados. A mãe dela estava grávida de cinco meses quando foi detida - e Pérez nasceu na prisão. Ela foi adotada por um militar, que está preso. Ela contou à BBC Brasil que o visita na cadeia: "Ele me criou, mas deve assumir suas responsabilidades."

A deputada afirmou que é "merecido que esses assassinos" da ditadura estejam presos e que continuará "lutando" para que continuem presos, mas quer que o governo adote medidas, como correções no índice de inflação oficial, apontados por críticos como maquiados. "Com essa medida (da maquiagem) o governo também está escondendo o total de pobres no país", disse.

A parlamentar afirmou que o kirchnerismo a decepcionou porque não cumpria com promessas como a de "renovar" a política. Candidata à reeleição, ela disse que sua meta é chegar à presidência da Argentina.

Juventude kirchnerista

O vereador da cidade de Buenos Aires, Juan Cabandié, da legenda oficial Frente para a Vitória, ficou conhecido no país, em 2004, quando conheceu seu verdadeiro nome e identidade biológica. Cabandié tinha 25 anos quando descobriu que era filho de desaparecidos políticos, com ajuda da entidade Avós da Praça de Maio, que intermediou um teste de DNA.

Divulgação
Juan Gabandié (D) com o ex-presidente Néstor Kirchner. O vereador conheceu seu verdadeiro nome e identidade em 2004
Ele descobriu que sua mãe biológica, Alicia Alfonsín, foi sequestrada pelos militares aos 17 anos, quando estava grávida dele. O bebê nasceu na famigerada Esma, a escola militar que foi centro de tortura nos chamados anos de chumbo. Sua mãe nunca mais foi encontrada. Ela ainda ficou 15 dias com o bebê e o chamava de Juan, segundo contaram sobreviventes.

"Quando alguém dizia 'Juan', achava que era comigo, mesmo sem saber ainda que eu era Juan", contou ele em 2004, ao ler uma carta na cerimônia de abertura de um centro das organizações de defesa de direitos humanos aberta na ex-sede da Esma.

Antes de descobrir sua identidade biológica, Juan se chamava Emiliano e tinha sido criado por uma família de militares. Desde então, defende o governo atual. "Eles adotaram medidas importantes para a nação. Uma delas foi a recuperação (nacionalização) dos fundos de pensão e aposentadorias. Esse é um governo preocupado com os mais pobres", disse à imprensa local.

Na sua opinião, o modelo do kirchnerismo é o da "inclusão social" e de "maior presença do Estado". Para ele, Cristina "devolveu" o espaço para os jovens participarem da política e esse é um dos motivos que o levam a apoiar sua reeleição. Cabandié é um dos líderes do movimento chamado "La Campora", que reúne os jovens do partido governita. "Com a juventude kirchnerista, esse projeto de governo poderá durar muitos anos", disse.

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