Família reforma casa que ficou de pé para ser única moradora do Bumba

Nove meses após deslizamento que deixou quase 50 mortos, estudante planeja voltar a morar no morro em plena temporada de chuvas

BBC Brasil |

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Nove meses após um deslizamento que matou quase 50 pessoas, quase não se veem vestígios de que havia uma comunidade no Morro do Bumba, em Niterói. A casa de Gisele Barbosa é a única ainda de pé na base do morro, que passa por obras de estabilização e reflorestamento. "Dei graças a Deus que eles não derrubaram (a casa), é a única coisa que eu tenho na vida", diz a estudante.

Júlia Dias Carneiro/BBC Brasil
Casa de Gisele Barbosa é a única ainda de pé na base do Morro do Bumba, que passa por obras de estabilização e reflorestamento
Gisele, de 28 anos, morava desde os 15 com a família na casa da esquina da rua Aurelino Cardoso, que dava acesso ao Morro do Bumba para quem chegava pela avenida principal. Hoje, a rua não existe mais, e o cenário de casas e barracos que se estendia de sua residência até o alto do morro, abrigo de 400 moradores, foi substituído por terra planada com gramínea e canaletas para escoar a água e evitar novos deslizamentos.

Quase todas as construções que resistiram aos deslizamentos de 7 de abril de 2010 foram condenadas à demolição. A residência onde Gisele morava com o marido e os três filhos - todos sobreviventes - havia tido o mesmo diagnóstico: "Primeiro disseram que iam derrubar a casa. Depois falaram que não iam derrubar mais. Acho que, no calor das coisas, a avaliação estava malfeita. Mas o problema é que, quando mudaram de ideia, eu já tinha vendido tudo. Arranquei porta, janela, pia, telhado, tudo, para poder vender e ganhar um dinheiro", conta Gisele.

Gisele e o marido agora estão reformando a casa e planejam voltar a morar no Bumba com os filhos e sua mãe em fevereiro, em plena temporada de chuvas. Serão praticamente os únicos moradores no morro.

Ela aponta para uma casa no outro extremo do descampado e para uma meia dúzia de barracos no alto do morro. São as outras que permaneceram de pé. Depois, indica uma área vazia ao lado de sua casa: "Nessa parte aqui morreram todos os vizinhos", diz.

Antigo lixão

Os deslizamentos no Morro do Bumba, favela construída sobre um antigo lixão, ocorreram dois dias após as fortes chuvas de abril de 2010. As autoridades municipais de Niterói haviam sido alertadas por pelo menos dois estudos sobre o risco de desabamento na área, mas não tomou medidas, conforme noticiou a BBC Brasil à época.

De acordo com a Secretaria estadual de Obras, o morro teve as curvas de nível reconstruídas e recebeu uma rede de drenagem e uma cobertura de manta de argila. Agora, o local está sendo reflorestado com grama e árvores. As obras devem ficar prontas até abril. Gisele admite ter "um pouquinho" de medo de voltar.

"Algumas pessoas acham que sou doida, que isso aqui vai cair de novo. Mas vou fazer o quê? Resolvi ficar no que é meu", diz ela, que faz graduação tecnológica de petróleo e gás numa universidade particular e conseguiu uma bolsa parcial depois das chuvas de abril.

O servente de obras Valdon Bispo dos Santos, de 43 anos, morava no alto do Bumba e não teve a mesma sorte. Sua casa teve de ser demolida. Ainda assim, vai para o Bumba todos os dias: está trabalhando na obra de contenção de encostas para proteger a Escola Municipal Sebastiana G. Pinho, ao lado do morro.

Júlia Dias Carneiro/BBC Brasil
Casa do servente de obras Valdon Bispo dos Santos no Morro do Bumba teve de ser demolida
De lá avista as obras do Estado para estabilizar o terreno do antigo lixão, agora oculto sob terra e grama. "O morro está mais bonito, ou pelo menos mais limpo", opina Valdon. "Mas sinto falta da minha casa, do meu quintal. Eu tinha plantas, muitas frutas. Hoje em dia não tenho nada. Para conseguir frutas tenho de comprar."

Depois de passar dois meses alojado numa igreja com a esposa e o filho, ele agora está morando no bairro de Caramujo, numa casa que conseguiu alugar pelos R$ 400 que recebe de aluguel social do governo do Estado. "O dono fez um preço camarada. Ele era conhecido do meu cunhado e facilitou", diz.

Valdon morou 20 anos no Bumba e diz que conhecia a maioria das pessoas que morreram. Com as demais, também perdeu contato. "Agora só nos vemos quando vamos receber o aluguel social na quadra da Viradouro."

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