Falta de saneamento agrava surto de cólera no Haiti

Dez semanas após início da epidemia, mais de 170 mil casos da doença foram registrados no país

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Em meados de novembro, a haitiana Marie-Jeux Jean Baptiste, de 23 anos, levou sua filha Marie-Love, de dois anos e oito meses, ao hospital.

O bebê tinha diarreia e vomitava, sintomas comuns entre as crianças de Waf Jérémie, uma das áreas mais pobres da favela de Cité Soleil, em Porto Príncipe, onde vive a família de Marie-Jeux.  "No início não me preocupei, mas como ela continuava mal, a levei à clínica", diz a mãe.

A menina foi medicada e mandada para casa. Como a filha continuava doente, Marie-Jeux a levou a outra clínica, onde Marie-Love morreu horas depois, vítima de cólera, doença que já matou mais de 3,6 mil haitianos desde outubro.

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Marie-Jeux Jean Baptiste mostra foto da filha Marie-Love, que morreu de cólera aos dois anos de idade

Segundo o Ministério da Saúde do Haiti, 10 semanas depois do início da epidemia, já foram registrados 171 mil casos de cólera em todos os departamentos do país.

Higiene

A epidemia é mais um drama em um país ainda devastado pelo terremoto de 12 de janeiro do ano passado. Um ano depois da tragédia, as ruas continuam cheias de lixo e escombros. Mais de 1 milhão de haitianos ainda vivem em acampamentos de desabrigados.

Em muitos desses acampamentos, assim como nas diversas favelas da capital haitiana, as condições de higiene são mínimas. A população vive sem água potável e sem latrinas, o que facilita a propagação da doença.

"Quando se leva em conta as condições em que eles vivem, é surpreendente que a epidemia não tenha deixado muito mais mortos", disse à BBC Brasil uma voluntária de uma clínica em Waf Jérémie.

Nesta semana, a organização Médicos sem Fronteiras divulgou um relatório em que critica a resposta à epidemia e afirma que os esforços para fornecer água potável e saneamento à população haitiana não foram suficientes.

O documento cita como exemplo as toneladas de lixo hospitalar produzidas diariamente que ficam sem local adequado para ser depositadas, prejudicando o funcionamento das unidades e o tratamento dos pacientes.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o controle da epidemia depende de uma "intervenção massiva" nos setores de água, saneamento e higiene do Haiti.

Propagação

Os primeiros casos de cólera surgiram no final de outubro, no Departamento de Artibonite, na região central do Haiti. A doença se espalhou logo depois, chegando à capital e ao resto do país.

Segundo o relatório mais recente da OMS, 128 organizações nacionais e internacionais trabalham no tratamento e contenção da epidemia de cólera no Haiti. A OMS diz que o tratamento melhorou, mas ainda não é possível oferecer acesso amplo à toda a população, especialmente em áreas montanhosas remotas.

Nas clínicas visitadas pela BBC Brasil em Porto Príncipe, funcionários e voluntários são rígidos quanto à exigência de que todos lavem as mãos e desinfetem os calçados antes de entrar. Os pacientes são divididos de acordo com a gravidade do quadro, e costumam ficar internados entre três e quatro dias.

Embora o tratamento da doença seja relativamente simples, ele precisa ser realizado nas primeiras horas, imediatamente após o surgimento dos sintomas. No entanto, em muitos casos, como o de Marie-Jeux, as vítimas e seus familiares não têm conhecimento da doença e acabam procurando ajuda tarde demais.

"Eu ainda choro. Mas tenho força em meu coração para enfrentar. Deus me deu a minha filha e Deus a tirou de mim", disse Marie-Jeux à BBC Brasil, um mês após a morte da menina. Apesar dos esforços para conter a doença e educar a população, a expectativa é de que a epidemia continue a se propagar.

"Com base nos dados de monitoramento disponíveis, a epidemia de cólera no Haiti continua a crescer", diz o relatório da OMS.

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Waf Jérémie, na favela de Cité Soleil, é um exemplo da falta de saneamento e condições de higiene em que vive a maioria dos haitianos

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