Ex-presidente uruguaio deixa política após comentário sobre Argentina

Tabaré Vázquez disse a estudantes que quando estava no poder avaliou a hipótese de conflito bélico com a Argentina durante crise

BBC |

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AP
Ex-presidente uruguaio Tabaré Vázquez durante encontro com Lula em maio de 2010
O ex-presidente do Uruguai Tabaré Vázquez anunciou nesta quinta-feira que abandonará a carreira política, depois de ter dito que considerou entrar em guerra contra a Argentina durante seu mandato (2005 - 2010). Em uma palestra a um grupo de estudantes em Montevidéu na última terça-feira, Vásquez disse que quando era presidente avaliou a hipótese de um "conflito bélico" com a Argentina durante a disputa pela construção de uma fábrica de pasta de celulose na fronteira entre os dois países.

"Tivemos um conflito muito sério com a Argentina. E um presidente deve avaliar todos os cenários possíveis. Não esperar que o problema aconteça para tomar uma medida. E eu avaliei todos os cenários, desde (um em que) não acontecesse nada até um conflito bélico", disse Vázquez.

O comentário foi duramente criticado por políticos dos dois países. Vázquez era tido como um possível candidato para as eleições de 2014, pela coalizão de centro-esquerda Frente Ampla.

Esforços

Em comunicado divulgado nesta quinta-feira, o ex-presidente uruguaio pediu desculpas e disse que sua declaração foi "inoportuna". "Eu as fiz (as declarações) tendo em conta as excelentes relações que felizmente temos hoje com nossos países irmãos. De qualquer maneira, e muito longe de minhas intenções, elas podem prejudicar essas relações, o projeto político da esquerda uruguaia e a própria Frente Ampla", disse.

Segundo o jornal uruguaio El País, o secretariado executivo da Frente Ampla pediu uma reunião com o ex-presidente para pedir que ele reveja sua decisão. A direção do partido afirmou que apoiará Vázquéz e garantiu que tentará fazer com que ele permaneça na vida política.

"A Frente Ampla não deixará de fazer todos os esforços para que, não só nossa força política como também o país sigam contando com uma figura da grandeza de Tabaré Vázquez", disse o comunicado".

Desavenças

A disputa pela fábrica de pasta de celulose de capital finlandês, conhecida como Botnia, ocupou as atenções durante grande parte dos governos Vázquez e Néstor Kirchner (2003-2007). "Apesar de ter feito um relato do que realmente aconteceu, considero que tais declarações foram inoportunas."

A fábrica funciona às margens do rio Uruguai, compartilhado pelos dois países, e a Argentina alegava que a planta poluía o rio. O Tribunal de Haia deu parecer favorável ao Uruguai e a manutenção da fábrica em funcionamento.

O ex-presidente afirma que contribuiu para suas suspeitas de que a desavença pudesse derivar em um conflito armado o fato de soldados do Exército argentino terem realizado, naquele período, treinamentos inéditos em frente à cidade uruguaia de Paysandú, na fronteira.

Vázquez contou que reuniu, então, os comandantes das Forças Armadas do país. "O comandante da Força Aérea me disse que tínhamos apenas cinco aviões e combustível para 24 horas", afirmou.

Os estudantes presentes da palestra riram quando o ex-presidente revelou a penúria dos aviões militares do país. "Mas não estou dramatizando, é a realidade", disse Vázquez.

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