Ex-presidente sul-africano chega à Costa do Marfim para mediar crise

Thabo Mbeki já havia mediado o fim da guerra civil no país

BBC Brasil |

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O ex-presidente sul-africano Thabo Mbeki chegou neste domingo à Costa do Marfim como representante da União Africana, para tentar mediar um fim à crise política no país após as eleições presidenciais da semana passada. O presidente Laurent Gbagbo e o candidato opositor Alassane Ouattara se declararam vencedores da eleição e tomaram posse no sábado em cerimônias separadas.

A confusão foi criada após a Corte Constitucional do país ter alterado na quinta-feira o resultado anunciado pela Comissão Eleitoral Independente, que havia dado a vitória a Ouattara, com 54% dos votos. Ouattara tem o apoio da comunidade internacional, que pede a Gbagbo que aceite a derrota.

ONU, Estados Unidos, França e o bloco de nações do oeste africano Ecowas estão entre os que manifestaram apoio aos resultados anunciados pela Comissão Eleitoral Independente. No entanto, em seu discurso na cerimônia, Gbagbo, que tem o apoio do Exército e controla os meios de comunicação do país, acusou a comunidade internacional de estar interferindo nos assuntos do país e alegou estar defendendo a soberania nacional.

'Consequências incalculáveis'

A União Africana advertiu que a crise pode ter "consequências incalculáveis" para o país, que tenta se recuperar da destruição provocada pela guerra civil entre 2002 e 2007. Gbagbo governa o país desde 2000. Apesar de seu mandato ter vencido em 2005, as eleições presidenciais foram adiadas sob o argumento de que não havia segurança para sua realização.

Em um comunicado, a União Africana rejeitou "qualquer tentativa de criar um fato consumado ao ignorar o processo eleitoral e a vontade do povo". O grupo pede que todos os envolvidos "mostrem a contenção necessária e evitem tomar ações que possam exacerbar a já frágil situação".

Mbeki, que quando era presidente da África do Sul ajudou a mediar um acordo de paz para encerrar a guerra civil na Costa do Marfim, desembarcou no aeroporto da capital, Abidjan, na manhã deste domingo. Mas sua presença gera desconfiança na oposição marfinense, que o vê demasiadamente próximo a Gbagbo.

O correspondente da BBC em Abdijan John James diz que é difícil ver qualquer espaço para a mediação de Mbeki, já que ambos os candidatos se mostram inflexíveis em suas reivindicações de que venceram a eleição. O temor no país é de que se não houver um acordo entre os dois, os grupos rebeldes do norte do país que apoiam Ouattara reiniciem a guerra civil em protesto.

Fraude

Ao participar da cerimônia de posse no início da tarde deste sábado, Gbagbo voltou a repetir as acusações de fraude que levaram o Conselho Constitucional a rejeitar milhares de votos do norte do país e declará-lo vencedor do pleito. "Vocês pensam que podem trapacear, encher as urnas e intimidar os eleitores e que o outro lado não vai ver o que está acontecendo", disse Gbagbo. Ele também disse ter notado "casos graves de interferência" nos últimos dias, em referência às manifestações de apoio internacional a Ouattara. "Nós não pedimos a ninguém para vir administrar nosso país. Nossa soberania é algo que eu vou defender", afirmou.

Poucas horas depois, Ouattara, um ex-primeiro-ministro proveniente da região predominantemente muçulmana ao norte do país, tomou posse em uma cerimônia num hotel de Abidjan protegido por soldados das forças de paz da ONU. Ele afirmou que a eleição foi "histórica" e que estava orgulhoso, mas que os últimos dias tinham sido "difíceis". "Mas isso é só um episódio breve. Quero dizer a vocês que a Costa do Marfim está agora em boas mãos", disse.

Ouattara imediatamente renomeou o primeiro-ministro Guillaume Soro ao cargo. Soro havia pedido a renúncia de Gbagbo horas antes. O primeiro-ministro, que é chefe de um grupo rebelde do norte do país, advertiu que a alteração dos resultados eleitorais ameaça as tentativas de estabilizar e reunificar o país após a guerra civil de 2002. A crise política gerou protestos nas ruas de Abidjan e de outras cidades. Ao menos quatro pessoas morreram nos confrontos em Adidjan nesta semana. A Costa do Marfim também ordenou o fechamento de suas fronteiras e suspendeu a transmissão de notícias de meios internacionais ao país, além de estabelecer um toque de recolher noturno.

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