Ex-embaixador dos EUA vê 'paranoia brasileira' com Amazônia

Para Clifford Sobel, Plano Nacional de Defesa do Brasil, lançado em 2008, não seria uma estratégia, mas um 'conjunto de ideias'

BBC Brasil |

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O Plano Nacional de Defesa (PND) do Brasil, lançado em 2008, seria condescendente com a "tradicional paranoia brasileira" em relação às organizações não-governamentais (ONGs) que atuam na Amazônia, segundo um telegrama do ex-embaixador americano no Brasil Clifford Sobel revelado pelo site WikiLeaks.

O WikiLeaks, site especializado em “vazar” documentos governamentais , publicou neste quarta-feira o comunicado de Sobel que foi enviado a Washington em 9 de janeiro de 2009. O embaixador permaneceu no Brasil entre agosto de 2006 e agosto de 2009.

"Um dos elementos mais notáveis da estratégia (PND) tem sido o foco na defesa da região amazônica", diz o documento vazado. "Enquanto o documento nota que a região enfrenta desafios correntes, desde fronteiras não controladas e potencial instabilidade em países vizinhos, ele também é condescendente com a tradicional paranoia brasileira sobre as atividades de ONGs e outras forças estrangeiras obscuras, popularmente percebidas como possíveis ameaças à soberania brasileira", afirma Sobel no telegrama.

O ex-embaixador criticou o PND como não sendo uma estratégia, mas "um conjunto de ideias". Clifford afirma no comunicado que o documento não especifica como as medidas serão implementadas ou financiadas. "É provável que os gastos com a Defesa não aumentarão a ponto de cumprir as metas em curto prazo de equipar as Forças Armadas com tecnologia de ponta produzida no Brasil", diz.

O embaixador descreve como “independência” (escrita no telegrama entre aspas) o que percebe ser o desejo brasileiro de controlar a produção de armamentos e priorizar alianças com países que transfiram tecnologia. Ele comenta que o então ministro do Planejamento Roberto Mangabeira Unger “dá mais importância à ‘independência’ do que à capacidade militar ou ao uso eficiente de recursos”.

'Elefante branco'

O telegrama ainda descreve o submarino nuclear brasileiro, cuja construção foi anunciada em 2008, em parceria com a França, como um “elefante branco politicamente popular”. No comunicado, Sobel também critica o trabalho da mídia a respeito o PND. "Talvez o comentário mais significativo do Brasil sobre a estratégia de defesa seja a falta de comentário”, diz.

“A maior parte da cobertura na imprensa brasileira teve como base comunicados de imprensa oficiais, em alguns casos, por exemplo, relatando com inexatidão que a estratégia poderia incluir a possível taxação de empresas privadas para financiar a Defesa.”

Vazamento do WikiLeaks

O WikiLeaks começou no último domingo a publicar um lote de 250 mil mensagens secretas trocadas entre diplomatas dos Estados Unidos . Os comunicados – muitos deles confidenciais – revelaram opiniões controversas de autoridades americanas a respeito de líderes mundiais e trouxeram à tona informações sobre os mais variados assuntos relacionados à política externa.

A divulgação dos dados causou fortes reações de repúdio nos EUA. A Casa Branca afirmou que o WikiLeaks é “irresponsável” e “coloca vidas em risco”. Já o fundador do site, o australiano Julian Assange, defendeu o vazamento e disse que as autoridades americanas têm medo de assumir responsabilidades.

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