Entenda a proposta de negociação direta entre Israel e palestinos

Saiba mais sobre as dificuldades para se alcançar um entendimento entre os dois lados e a importância do diálogo direto

BBC Brasil |

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Israel e os palestinos concordaram em retomar as negociações diretas de paz em 2 de setembro, quando o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, e o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, devem se encontrar frente a frente pela primeira vez desde dezembro de 2008.

O enviado especial dos Estados Unidos para o Oriente Médio, George Mitchell, vem há meses realizando reuniões com os dois líderes com o objetivo de viabilizar a reunião. A BBC preparou uma série de perguntas para ajudar você a entender o processo de paz, as dificuldades para se alcançar um entendimento entre os dois lados e a importância destas negociações diretas.

Quais eram os principais obstáculos à retomada dos contatos diretos entre palestinos e israelenses?

AP
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu
Durante muitas semanas, os dois lados discordaram sobre como deveriam se dar as negociações. Por um lado, Netanyahu vinha insistindo que não lhe fossem impostas pré-condições.

Por outro, Abbas exigiu receber garantias de que o futuro Estado palestino que venha a surgir das negociações seja baseado nas fronteiras de Israel de antes da Guerra dos Seis Dias, de 1967, quando o Exército israelense anexou Cisjordânia, Gaza, a Península do Sinai e as Colinas de Golã. Ele também pediu uma paralisação completa na construção de assentamentos judeus na Cisjordânia.

Os dois lados vinham sendo pressionados por Washington para que as negociações diretas fossem retomadas antes de 26 de setembro, quando termina uma suspensão de dez meses desse tipo de construção, adotada por Israel. Acredita-se que a retomada da construção de assentamentos possa ser um golpe fatal para o processo de paz.

O que quer Israel nessas negociações?

Netanyahu é a favor da criação de um Estado palestino, mas quer que ele seja desmilitarizado e que reconheça a existência do Estado de Israel. Para ele, Jerusalém - cuja parte oriental os palestinos querem que seja a capital do seu futuro Estado - deve ser considerada a capital eterna e indivisível de Israel. Com isto, Netanyahu assume uma postura mais dura nas negociações do que a do seu antecessor, Ehud Olmert, mas ainda não está claro se Netanyahu considera isto inegociável ou se há margem para barganha.

E os palestinos?

Os palestinos querem um Estado viável e independente ocupando a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, com capital em Jerusalém Oriental. Eles querem que o mapa de seu país seja baseado nas áreas que Israel ocupou em 1967, mas estariam dispostos a aceitar uma troca parcial de território - permitindo a continuidade de alguns blocos de assentamentos na Cisjordânia em troca de território hoje sob controle israelense.

O que aconteceu da última vez que os dois lados realizaram contatos diretos?

As negociações entre o governo de Olmert e os palestinos entraram em colapso em dezembro de 2008 quando Israel lançou uma grande ofensiva na Faixa de Gaza. A operação ocorreu perto do final do mandato de Olmert, e Netanyahu demorou meses até apoiar publicamente a ideia de um futuro Estado palestino.

Durante as conversas, Olmert e Abbas analisaram mapas com propostas para a fronteira comum, mas não chegaram a um acordo. Olmert chegou a dizer que sua oferta havia sido a mais generosa já apresentada aos palestinos.

Ele sugeriu que os lugares santos de Jerusalém (cidade sagrada para judeus, muçulmanos e cristãos) tivessem supervisão internacional, o retorno simbólico de milhares de palestinos e, segundo o jornal israelense Haaretz, a retirada de Israel de 93,7% da Cisjordânia, além da cessão de terras israelenses equivalentes de 5,8% da área da Cisjordânia aos palestinos em troca de parte da Cisjordânia.

Os palestinos disseram ter proposto aos israelenses que eles permanecem com apenas 1,9% da Cisjordânia em troca de terra israelense.

Quais são as chances de sucesso das novas negociações?

Não existe muito otimismo de ambos os lados. Israelenses e palestinos questionam a sinceridade um do outro nas negociações. Também há um distanciamento evidente entre as posições que eles defendem.

No momento, Netanyahu tem pouca margem para barganha, já que sua coalizão de governo inclui partidos que se opõem até mesmo à mera discussão do status de Jerusalém. Ele pode, porém, tentar trazer para sua base de sustentação o partido Kadima, centrista, se estiver disposto a fazer concessões.

A posição de Abbas é politicamente frágil. Seu mandato, estabelecido democraticamente em eleições, já acabou. Novas eleições estão para ser realizadas, mas até agora não saíram do papel devido à briga entre o Fatah - partido de Abbas, que controla as áreas palestinas da Cisjordânia - e o Hamas, que controla a Faixa de Gaza. O Hamas se opõe às negociações.

Se Abbas chegar a um acordo com os israelenses, provavelmente ele será em termos que também serão rejeitados pelo Hamas. Entretanto, alguns líderes palestinos acreditam que, nesse cenário, um acordo poderia ser aceito até mesmo na Faixa de Gaza se aprovado em um referendo pelos palestinos.

O que pode acontecer se as negociações fracassarem?

Atualmente, o primeiro-ministro palestino Salam Fayad está trabalhando para estabelecer os órgãos econômicos e de segurança do futuro Estado, com a meta de concluir essa missão até a metade de 2011. Especula-se que isso possa levar a uma declaração unilateral de independência dos palestinos.

Embora Abbas tenha descartado isso, a possibilidade ainda é preocupante para Israel. Também existe sempre o temor de que o fracasso dos esforços políticos possa elevar o nível de violência. Um novo confronto entre Israel e o grupo libanês Hezbollah ou entre Israel e o Hamas poderiam desestabilizar ainda mais a região.

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