Entenda: A ascensão e a queda de Gordon Brown

Não era para ter sido assim. Durante anos, Gordon Brown quis ser primeiro-ministro.

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Sua ambição era tão grande que manchou sua relação com seu adversário trabalhista Tony Blair. Ele e sua equipe manobraram, conspiraram e planejaram por uma década para conseguir o cargo de premiê, descartando todos os adversários dentro do Partido Trabalhista, para que ele pudesse ser nomeado sem eleição. "Farei o melhor que puder", disse ele quando entrava no número 10 de Downing Street - sede do governo britânico - como primeiro-ministro, pela primeira vez, em junho de 2007. Mas no fim, o melhor que ele pôde não foi suficiente. Brown anunciou que deixa o governo menos de três anos depois de ter se tornado premiê, servindo pouco menos que James Callaghan, o último premiê trabalhista a ser nomeado sem vencer uma eleição geral. Poucos sabem quando Brown começou a pensar em ocupar o cargo pela primeira vez. Mas, no momento em que ele foi eleito para o Parlamento, em 1983, poucos poderiam ignorar que o número 10 de Downing Street era seu objetivo. Ele ascendeu rapidamente no partido - promovido ao governo paralelo da oposição por Neil Kinnock, ao lado de seu amigo Tony Blair. Mas, quando o substituto de Kinnock, John Smith, morreu subitamente, em 1994, foi Blair que o substituiu como líder do Partido Trabalhista. Brown concordou em abrir caminho, mas os detalhes do acordo que permitiu a ascensão de Blair assombraram o projeto do New Labour, o novo trabalhismo, à medida que seus correligionários discutiam sobre o que realmente tinha sido acordado. No governo Blair, como ministro das Finanças, Brown deu independência ao Banco da Inglaterra e conseguiu um crescimento prolongado e inflação baixa. Ele assumiu o controle de áreas da política doméstica, para frustração dos aliados de Blair, e reformulou o sistema de impostos. E então, após dez anos esperando à margem, Brown foi saudado quando deixou o ministério para assumir o governo no verão de 2007, prometendo mudanças e renovar a confiança do público no governo. Faltando semanas para tornar-se primeiro-ministro, ele enfrentou atos de terrorismo, um surto de febre aftosa e enchentes ao redor do país. Encorajado por bons índices de aprovação e por colegas otimistas, ele brincou com a possibilidade de convocar uma eleição relâmpago no verão de 2007 - mas hesitou e, no fim, desistiu da ideia. Seus opositores o acusaram de ser hesitante e sua posição nas pesquisas começou a cair. O partido que ele lidera perdeu eleições - para prefeito de Londres, para várias legislaturas na Inglaterra e no País de Gales, e para eleições locais em Crewe e Glasgow. "De Stalin a Mr. Bean" Houve polêmica sobre doações políticas e sobre o vazamento de informações públicas, que desferiram novos golpes em sua autoridade. O porta-voz das Finanças do Partido Liberal Democrata, Vince Cable, definiu Brown dizendo que ele tinha se transformado de Stalin a Mr. Bean - o personagem trapalhão de uma série de TV britânica. E então veio a crise financeira. Por um lado, sua reputação de político competente na área econômica foi posta em xeque. O banco Northern Rock sofreu um dos maiores golpes da história recente do sistema bancário britânico. Sua forma leve de controlar a regulamentação da City - o centro financeiro de Londres - foi questionada, além do tamanho do déficit financeiro, que ele permitiu crescer. Mas também houve aprovação maciça sobre a forma com que ele e o ministro das Finanças, Alistair Darling, lidaram com a crise, recapitalizando os bancos e chegando a acordos sobre pacotes de estímulo que foram copiados em todo o mundo. A reunião do G20 que ele presidiu em Londres foi comemorada por muitos. Brown sempre teve seus críticos dentro do trabalhismo e, no segundo semestre de 2008, ele enfrentou sua primeira crise de liderança, com ministros e parlamentares pedindo abertamente sua saída do governo. No segundo semestre do ano passado, houve o escândalo dos gastos de parlamentares. A resposta de Brown foi mais lenta do que a de seus oponentes. Uma avalanche de renúncias afetou seu Gabinete - Hazel Blears, Jacqui Smith e até Jemes Purnell, que saiu no dia das eleições europeias, em que os trabalhistas chegaram em terceiro lugar, com apenas 16% dos votos. Brown sobreviveu a tudo isso, assim como sobreviveu, em janeiro deste ano, a dois ministros - Patricia Hewitt e Geoff Hoon - pedindo uma disputa pela liderança do Trabalhismo, para resolver a questão de uma vez por todas. E então, no meio da campanha eleitoral, ele encontrou uma mulher chamada Gilian Duffy, uma aposentada de Rochdale. Os comentários de que ela era uma mulher preconceituosa foram capturados por um microfone e reproduzidos enquanto ele dava uma entrevista, enquanto ele segurava a cabeça com as mãos. Brown visitou Gillian em sua casa para pedir desculpas, mas o estrago estava feito. Brown entrou nessa eleição afirmando que seu conteúdo e sua experiência enterrariam o clamor por mudanças. No fim, não foi suficiente. O pulso firme perdeu o peso.

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