Em livro, acusado de fraude de US$ 7 bi na França compara traders a prostitutas

O francês Jérôme Kerviel, ex-operador de mercado do banco Société Générale, acusado de operações fraudulentas que causaram prejuízos de quase 5 bilhões de euros (US$ 7 bilhões ou R$ 11,4 bilhões) à instituição financeira em 2008, comparou os operadores a prostitutas no livro sobre sua história, que será lançado nesta quarta-feira na França. Segundo ele, "no seio da grande orgia bancária, os traders têm direito ao mesmo tipo de consideração que qualquer prostituta: o reconhecimento rápido de que o dia foi bom".

BBC Brasil |

O francês Jérôme Kerviel, ex-operador de mercado do banco Société Générale, acusado de operações fraudulentas que causaram prejuízos de quase 5 bilhões de euros (US$ 7 bilhões ou R$ 11,4 bilhões) à instituição financeira em 2008, comparou os operadores a prostitutas no livro sobre sua história, que será lançado nesta quarta-feira na França. Segundo ele, "no seio da grande orgia bancária, os traders têm direito ao mesmo tipo de consideração que qualquer prostituta: o reconhecimento rápido de que o dia foi bom". Intitulado "L'Engrenage, Mémoires d'un trader" (A Engrenagem, Memórias de um operador de mercado, em tradução literal), o livro chega às livrarias francesas cerca de um mês antes do início do julgamento de Kerviel, no dia 8 de junho. O ex-operador, acusado de ter cometido uma das maiores fraudes financeiras da história, revelada em janeiro de 2008, pode ser condenado a cinco anos de prisão e multa de 375 mil euros (R$ 858 mil). "Eu não sou um sintoma da crise financeira. Sou um homem que cometeu erros em um banco que durante muito tempo os admitiu porque tinha lucros com isso", diz ele no livro. Kerviel justifica a comparação entre operadores de mercado e prostitutas afirmando que "era preciso, diariamente, ganhar mais dinheiro para o banco". Segundo ele, as reflexões de seus superiores hierárquicos na época o faziam pensar isso. "Eles diziam coisas como você foi uma boa ganhadora hoje, quanto você fez, vou ver o movimento do dia". 'Silêncio rompido Kerviel, hoje com 33 anos, reconheceu na Justiça ter dissimulado operações fictícias e fraudado os controles de segurança do Société Générale para realizá-las. Ele chegou a movimentar volumes astronômicos que atingiram 50 bilhões de euros (R$ 114 bi) - um montante bem superior ao patrimônio líquido do banco. Sua motivação, revelada às autoridades judiciais nos interrogatórios, era a de aparecer como um "antecipador dos mercados", e ganhar, com seu esforço pessoal, mais dinheiro graças aos bônus obtidos com as transações. "Esse livro rompe o silêncio ao qual me restringi durante dois anos, período em que meu nome foi arrastado na lama", afirma Kerviel. Ele é único réu do processo e diz "assumir seus atos". Mas o ex-operador tentará demonstrar durante o julgamento no Tribunal Criminal de Paris que a direção do banco estaria a par de suas ações fraudulentas, uma alegação que ele já expõe em seu livro. "Tenho minha parte de responsabilidade. Fazia parte de um sistema e funcionava de acordo com ele. Mas espero que outros também assumam suas responsabilidades. Não fui eu que criei esse sistema, todo mundo aproveitou e não quero ser o único a pagar por isso", disse Kerviel em uma entrevista a uma TV francesa. "Assumi riscos excessivos, sucumbi à embriaguez das cifras, mas nenhum guard-rail veio frear meus movimentos", afirma no livro. Segundo ele, o dossiê de sua defesa penal estaria "repleto de elementos que comprovariam que o banco estaria a par das operações fraudulentas". "O banco, num discurso oficial, diz que controla todas as operações. Como dizer à Justiça que 500 bilhões de operações fictícias passaram despercebidas? Tudo era controlado e visto no sistema de informática do Société Générale", afirmou o ex-operador em entrevista à TV. Kerviel afirma ainda que é uma utopia acreditar que o sistema mudou após o escândalo. "Hoje, tomadas de posições nos mercados como as minhas podem acontecer em qualquer lugar do mundo". Ele diz que "dois anos depois, nada foi feito para evitar que isso se reproduza". Proveito O ex-operador também sugere que o banco teria tirado proveito com a fraude bilionária para desviar as atenções para o caso e minimizar problemas decorrentes da perda de 2 bilhões de euros com os subprimes. "Esse prejuízo passou quase despercebido de tanto que a atenção foi voltada para o meu caso", afirma. "O homem de 5 bilhões de euros", como chegou a ser chamado, ganhava, em média, menos de 100 mil euros por ano, com os bônus, um dos salários mais baixos da profissão. Hoje Kerviel trabalha em uma pequena empresa de informática na periferia de Paris e ganha 2,3 mil euros por mês. O ex-operador diz estar "sereno e confiante" para enfrentar seu julgamento, entre 8 e 23 de junho, no qual ele espera que também sejam discutidos "os desvios do setor financeiro".

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