Declaração de papa sobre camisinha é bem recebida por ativistas

Programa da ONU contra a Aids classificou comentários do papa de "um passo adiante significativo e positivo"

BBC Brasil |

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Grupos progressistas da Igreja Católica e ativistas da luta contra o HIV/Aids receberam bem a declaração do papa Bento 16 de que o uso da camisinha é aceitável "em certas situações". A afirmação, que será publicada em um livro, nesta terça-feira, marca uma posição mais branda do Vaticano em relação ao uso de preservativos e ao combate à Aids, segundo analistas. 

Reuters
Papa em foto deste sábado, durante nomeação de cardeais, no Vaticana. Bento 16 diz que camisinha pode reduzir contaminção pela Aids

Enquanto anteriormente o papa havia dito que o uso de camisinhas punha em risco a saúde pública e ampliava o problema da Aids, em vez de ajudar a conter a doença, agora o pontífice afirma que no caso de homens que se prostituem, por exemplo, o uso de proteção seria "um ato de responsabilidade moral", ainda que as camisinhas "não sejam realmente o caminho para lidar com o mal da infecção pelo HIV".

O programa das Nações Unidas contra o HIV/Aids, UNAids, classificou os comentários do papa de "um passo adiante significativo e positivo". "A declaração reconhece que um comportamento sexual responsável e o uso de preservativos têm um papel importante na prevenção do HIV", disse o diretor-executivo do UNAids, Michael Sidibe.

O Movimento de Acesso ao Tratamento do Quênia, que combate o avanço do HIV, disse que o papa havia aceitado a realidade de que a abstinência nem sempre funciona.

"É aceitar a realidade da vida. Se a Igreja fracassou em conseguir que as pessoas sigam seus valores morais e pratiquem a abstinência, ela deveria aceitar a segunda melhor opção e encorajar o uso do preservativo", afirmou David Kamau, líder da organização.

'Colapso dos ensinamentos da Igreja'

O grupo católito progressista We Are Church (Nós Somos a Igreja) disse que a declaração do papa mostra que ele aprendeu com a experiência, enquanto o ativista do movimento gay britânico Peter Tatchel disse à BBC que os comentários do papa são importantes, mas "esclarecimentos" ainda são necessários. Para o coordenador do grupo Catholic Voices (Vozes Católicas), Austen Ivereigh, mesmo que seja a primeira vez que o papa esteja divulgando essa opinião em relação à camisinha, ela está de acordo com o que teólogos católicos têm dito há muitos anos.

"Os ensinamentos da Igreja em relação à contracepção são anteriores ao surgimento da Aids. O surgimento do HIV levantou a questão sobre o uso do preservativo para prevenir a doença. Se a intenção é impedir a transmissão do vírus, e não impedir a gravidez, teólogos diriam que esta é uma questão de uma ordem moral diferente", disse Ivereigh.

Mas a mudança de posição do papa não agradou a todos. Clifford Longley, que escreve para o jornal católico britânico The Tablet, disse que a declaração não é apenas uma pequena mudança na postura da Igreja. "Uma pequena concessão pode facilmente se tornar o colapso de todo o edifício dos ensinamentos da Igreja Católica sobre contracepção", disse ele.

"As implicações me parecem muito mais vastas até do que o papa poderia prever." 'Luz do mundo' O L'Osservatore Romano, jornal do Vaticano, publicou no sábado trechos do livro escrito por um jornalista alemão com base em uma série de entrevistas com o papa Bento 16.

Ainda sem lançamento previsto no Brasil, o livro se chamará "Light of the World: The Pope, the Church and the Signs of the Times" (Luz do mundo: o papa, a igreja e os sinais dos tempos).

Quando questionado se a Igreja Católica era "fundamentalmente contra o uso de camisinhas", o papa teria dito: "Ela certamente não a vê como uma solução real e moral. (...) Em alguns casos, quando a intenção é reduzir o risco de infecção, ela pode todavia ser um primeiro passo no caminho para uma outra sexualidade, mais humana."

O papa citou o exemplo do uso de camisinha por homens que se prostituem como um "primeiro passo no sentido da moralização" Bento 16 disse que a "obsessão quanto à camisinha implica a banalização da sexualidade", o que tornaria o sexo não mais uma expressão do amor, "mas somente uma espécie de droga que as pessoas administram a si mesmas".

A posição da Igreja sobre métodos de contracepção tem gerado críticas à instituição, principalmente após a Aids se alastrar pelo globo. Médicos e especialistas dizem que a camisinha é um dos únicos métodos capazes de frear a disseminação do vírus HIV.

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