Crise econômica é combustível para ascensão do Tea Party

Contrário às políticas do presidente Obama, movimento ganha força na campanha para eleições legislativas

BBC Brasil |

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Uma caminhada pelo centro de Reno, cidade de pouco mais de 200 mil habitantes no Estado americano de Nevada, mostra as cicatrizes ainda recentes da recessão que atingiu o país e ajuda a explicar a ascensão do fenômeno conservador Tea Party.

O movimento, que reúne vários grupos contrários às políticas do presidente Barack Obama e à interferência do Estado em diversos setores da sociedade, ganhou força na campanha para as eleições legislativas de 2 de novembro, ao ameaçar a vaga não apenas de políticos democratas consagrados, mas também de republicanos mais moderados.

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Sarah Palin, ex-senadora do Alasca e ex-candidata republicana à vice-presidência dos EUA, é um dos principais nomes do Tea Party (18/10/2010)

Na rua principal de Reno, um punhado de turistas divide espaço com mendigos em busca de esmolas. Os cassinos e hotéis, base da economia local, permanecem quase vazios e são um exemplo de que, como o próprio presidente Obama já disse, os Estados Unidos ainda têm pela frente um longo caminho rumo à recuperação pós-crise.

Com sua economia baseada no turismo e na construção civil, dois setores fortemente atingidos pela crise econômica, a cidade é um retrato do que ocorre em Nevada, Estado com alguns dos piores indicadores econômicos do país e berço de uma das maiores estrelas do Tea Party nestas eleições, a candidata ao Senado Sharron Angle, que concorre pelo Partido Republicano.

"Sempre há um tipo de partido antigoverno nas eleições legislativas que ocorrem na metade do mandato presidencial. Mas agora, há o agravante da economia, que vai mal", disse à BBC Brasil o cientista político Eric Herzik, professor da Universidade de Nevada em Reno.

"A grande questão é a economia. A taxa de desemprego é de 9,6% no país, e em Nevada é de mais de 14%. Há um colapso do mercado imobiliário que parece nunca chegar ao fim. E ainda há duas guerras impopulares", afirma Herzik.

Raiva

Em um país que sofre com o ritmo lento da recuperação da economia, Nevada aparece em situação ainda pior. No ano passado, a população do Estado diminuiu, pela primeira vez desde a Grande Depressão. Nevada tem a mais alta taxa de desemprego do país, os maiores índices de execuções de hipotecas e de falências e o maior déficit orçamentário.

Nesse cenário, a conservadora cristã Angle despontou pregando a redução da interferência do Estado, de gastos públicos e de impostos, e a oposição a quase todas as medidas do governo Obama, desde a reforma do sistema de saúde até os pacotes de resgate aos bancos.

Com essa plataforma, Angle ganhou a adesão dos americanos que perderam a paciência de esperar por melhoras na economia e pode acabar conquistando a cadeira do líder da maioria democrata no Senado, Harry Reid, com quem há meses aparece empatada nas pesquisas de intenção de voto.

"Acho que o governo Obama pode dizer com justiça que herdou muito do problema econômico. Mas suas políticas imediatas de estímulo e sua segunda parte do resgate aos bancos, e mesmo alguns dos esforços para recuperar o mercado imobiliário, talvez até estejam funcionando, mas ainda não vimos o resultado", diz Herzik.

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Sharron Angle é a candidata do partido Republicano ao Senado no Estado de Nevada (21/10)
"Nacionalmente, os americanos estão com raiva. Sharron Angle representa essa raiva na sociedade americana neste momento", afirma o cientista político. Como é próximo de Obama e participou da maioria das políticas do governo, Reid acaba canalizando boa parte dessa raiva, que é visível nas ruas de Reno.

"Reid apoia os planos do governo Obama em vez de representar os interesses do nosso Estado", disse à BBC Brasil a estudante de psicologia Katherine Fortuna, 19 anos, enquanto fazia campanha por Angle em frente à Universidade de Nevada. "Angle não é influenciada pelo governo de Obama e por seus planos", disse a estudante, que vai votar pela primeira vez neste ano.

Divisão republicana

Angle, de 61 anos, é expoente da onda conservadora que tomou conta do país e, segundo analistas, pode não apenas tirar a maioria dos democratas no Congresso, mas também isolar líderes republicanos mais moderados e empurrar o Partido Republicano para a extrema direita após as eleições de novembro.

Apesar de dizer que não é política de carreira e se apresentar como "mãe e avó de classe média", Angle faz parte do cenário político de Nevada há vários anos e foi eleita para a Assembleia Estadual no final dos anos 90.

Ela ganhou a indicação do partido para concorrer ao Senado ao derrrotar a republicana Sue Lowden nas primárias. Sua candidatura acabou provocando divisões, e alguns republicanos em Nevada dizem que vão votar em Reid por não concordar com muitas posições da candidata consideradas "extremas".

"Angle está muito à extrema direita no partido. Ela não defende apenas um governo menor, mas é anti-governo. É também muito conservadora em questões sociais", diz Herzik. "Como republicano, digo que é doloroso assistir a isso."

"Os republicanos tradicionais se distanciam dela. Muitos deles querem um governo menor, mas não acabar com todas as políticas sociais, ou com o Departamento de Educação (como a candidata propõe). Eles veem um papel para o governo, que Sharron Angle não vê", afirma o cientista político.

O professor calcula que atualmente o Tea Party represente entre 40% e 50% do Partido Republicano. "É uma parcela do partido que tem uma energia enorme e uma base de apoiadores muito dedicada."

Os adversários democratas se aproveitam das gafes e declarações polêmicas de Angle e se esforçam para fixar o rótulo de extremista na candidata e em outros representantes do Tea Party. "Não é bom ver o Partido Republicano ser tomado pelo Tea Party", disse o vice-presidente americano, Joe Biden, em um comício em apoio a Reid em Reno, na semana passada.

Propostas

O Tea Party não tem comando central e inclui centenas de grupos espalhados pelos Estados Unidos, alguns com apenas cinco ou dez membros. Em uma pesquisa realizada em todo o país, o jornal The Washington Post identificou cerca de 1,4 mil grupos, mas conseguiu confirmar a existência e fazer contato com menos da metade.

Em comum, eles têm a preocupação com os rumos da economia, a desconfiança em relação ao governo Obama e a defesa da limitação do tamanho do Estado. Os membros do Tea Party se orgulham de não ser um partido político e demonstram descontentamento tanto em relação aos democratas quanto aos republicanos tradicionais.

Os candidatos apoiados pelo Tea Party ganharam força com a ajuda do financiamento vindo de grupos conservadores mais organizados, que gastaram milhões nas campanhas de candidatos como Sharron Angle.

Os US$ 14 milhões (cerca de R$ 23,7 milhões) levantados por Angle nos últimos três meses vieram de pequenos doadores mas, principalmente, de grandes organizações como a American Crossroads, da qual Karl Rove, conselheiro de George W. Bush, é co-fundador, ou o Club for Growth, que prega redução de impostos e de gastos do governo.

Segundo analistas, apesar da rejeição a temas comuns, o Tea Party não traz propostas específicas para o debate político. "Eles estão com raiva. Mas não são articulados sobre os pontos específicos dos quais têm raiva e como vão consertar os que acham que está errado", diz Herzik. "Mas no momento atual, ser antigoverno, mesmo sem um plano alternativo, é uma posição que parece encontrar eco nos eleitores americanos", afirma.

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