Contrabandistas de Gaza furam barreira de aço construída pelo Egito

Governo egípcio diz que muro é construído com aço super-resistente; quando concluída, barreira terá 18 metros de profundidade

BBC Brasil |

Contrabandistas que atuam na fronteira egípcia com a Faixa de Gaza já estão começando a abrir buracos em uma nova barreira de aço que o Egito está construindo na região, ao custo de milhões de dólares.

As autoridades egípcias dizem que a barreira, com o objetivo de impedir o contrabando para Gaza, é feita com aço super-resistente, à prova de bombas. O governo do Cairo disse que começou a construir a barreira ao longo da fronteira no ano passado. Quando ela for concluída, deverá ter 11 km de comprimento e chegar a uma profundidade de 18 metros.

Mas a reportagem da BBC encontrou um cavador de túneis da Faixa de Gaza que disse que a barreira "é uma piada" e é possível abrir buracos nela usando maçaricos de alta potência. "Nós pagamos cerca de US$ 1 mil para um homem com um cortador vir e furá-la. Leva até três semanas para cortar, mas no final nós chegamos lá", disse Mohammed (nome fictício). Ele disse que a barreira de aço tem uma espessura de entre 5 cm e 10 cm.

Constrangimento

AFP
Contrabandista palestino trabalha dentro de túnel sob a fronteira entre o Egito e a Faixa de Gaza em Rafah, no sul da Faixa de Gaza, em 29 de abril
"Todo problema tem uma solução. A barreira de aço egípcia era um problema, mas nós encontramos uma solução", disse Mohammed. Coberto de poeira e terra, ele está cavando um túnel de 750 metros de comprimento para trazer contrabando do Egito para Gaza. Ele conta que está cavando o túnel há 18 meses.

A BBC conversou com um homem em Gaza contratado para cortar a barreira. Ele disse que podia abrir um buraco de um metro quadrado em menos de um dia. Essa notícia será constrangedora para o governo do Egito, que recebe ajuda militar dos Estados Unidos e vem tentando coibir o contrabando para a Faixa de Gaza. Procurado pelo BBC, o governo egípcio não comentou as alegações de que a barreira já tem buracos.

Ovelhas e xampu

O território palestino está sob bloqueio econômico israelense e egípcio desde 2007, quando o movimento islâmico Hamas assumiu o controle da área. O bloqueio foi reforçado para pressionar o Hamas e pôr fim ao contrabando de armas para o território palestino. O governo secular do Egito se opõe ao Hamas, que historicamente tem laços com a Irmandade Muçulmana, o principal movimento de oposição do Egito - que é ilegal mas, na prática, é tolerado.

Muitos moradores da Faixa de Gaza estão irritados com o governo egípcio que, segundo eles, está agravando o seu sofrimento. Por causa do bloqueio, a Faixa de Gaza fica muito dependente do contrabando vindo do Egito por meio dos túneis. Bens no valor de milhões de dólares são trazidos para Gaza mensalmente. Tudo - de geladeiras a ventiladores, passando por ovelhas e xampu - chega por meio dos túneis.

A BBC até conseguiu um vídeo neste ano que mostra carros novos inteirinhos sendo arrastados pelos túneis a partir do Egito. As Nações Unidas estimam que até 80% do que é importado na Faixa de Gaza chega pelos túneis.

Grande negócio

Os túneis não são difíceis de achar. Na cidade de Rafah, no sul da Faixa de Gaza, bem na fronteira, há uma série deles cobertos por tendas brancas. Não há muita preocupação em mantê-los secretos. Eles ficam cercados de montes de areia que foram retirados do buraco. No ar, paira o cheiro de óleo diesel proveniente de caminhões que transportam os bens pela Faixa de Gaza. A forma explícita como a operação de contrabando é feita sugere que se Israel e o Egito realmente desejassem acabar com os túneis poderiam fazer isso com facilidade.

Israel explodiu alguns túneis com bombas no passado, mas não chegou a fechá-los totalmente. Organizações assistenciais na Faixa de Gaza dizem que, se Israel e o Egito se empenhassem realmente em acabar com o contrabando, a situação da população do território ficaria ainda mais desesperadora e isso prejudicaria a reputação internacional de Israel e do Egito.

Diplomatas na região também acreditam que o comércio através dos túneis é rentável para o Egito e, por isso, é provável que boa parte dele continue. Mas o chefe de operações da agência de apoio das Nações Unidas na Faixa de Gaza (UNRWA, na sigla em inglês), John Ging, disse que os habitantes da região saem perdendo. "Tudo é caro porque as pessoas são reféns da dinâmica do mercado negro."

Ging destacou que é o bloqueio egípcio-israelense que está permitindo o desenvolvimento do mercado negro. A ONU não usa artigos e material de construção contrabandeado por meio dos túneis. Se o bloqueio continuar, parece que a indústria dos túneis vai continuar a crescer, quer a barreira de aço subterrânea exista ou não.

"Se eles abrissem a fronteira, não seria necessário que cavássemos túneis", disse Mohammed. "Mas, até que eles façam isso, nós continuaremos cavando, não importa o que façam para tentar nos impedir." "Todo problema tem uma solução", ele diz, sorrindo.

    Leia tudo sobre: EgitoFaixa de GazabarreiracontrabandoIsraelHamas

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG