Contra esquerda dividida, presidente tenta reeleição no 1º turno em Portugal

Sondagens dão entre 55% e 58% dos votos para Aníbal Cavaco Silva

BBC Brasil |

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Eleitores portugueses vão às urnas em eleições presidenciais neste domingo, em meio aos efeitos da crise econômica e os riscos da crise da dívida na Europa.

As sondagens dão entre 55% e 58% dos votos para o atual presidente Aníbal Cavaco Silva, de centro-direita. Contra a tentativa de Cavaco Silva de ter seu segundo mandato, são cinco os candidatos da esquerda. O que conta com mais intenção de voto nas pesquisas é o socialista Manuel Alegre, que tem o apoio do primeiro-ministro e colega de partido, José Sócrates.

As eleições ocorrem num cenário de crise econômica. O país tem dificuldades de conseguir financiamento nos mercados internacionais, situação que fez com que o governo dirigido por Sócrates tomasse medidas duras, como o corte dos salários, aumento de impostos e redução dos subsídios de desemprego e dos apoios sociais.

Os mercados internacionais exigem juros cada vez mais altos para conceder crédito a Portugal e existe o risco de o país ter de recorrer ao Fundo de Estabilização Financeira, da União Europeia, e sofrer uma intervenção do Fundo Monetário Internacional (FMI), o que analistas acreditam requerer mais medidas de arrocho.

"As eleições vão embaralhar ainda mais o cenário político português", avalia o jornalista especializado em política Carlos Magno. "Cavaco faz campanha afinando o discurso para depois das eleições."

Na avaliação de Magno, os partidos que apoiam o presidente – o Partido Social Democrata, de centro-direita, e o Centro Democrático Social, de direita – deverão esperar a derrota do próximo orçamento para derrubar o governo de Sócrates no parlamento.

Em campanha, o atual presidente tem procurando atrair o eleitorado descontente com as medidas do governo. Nos comícios, tem criticado a queda do nível de vida dos portugueses, o aumento do desemprego e até o corte nos apoios ao ensino pago – a maioria das escolas particulares é ligada à Igreja católica.

Em campanha pelo candidato socialista Manuel Alegre – que segundo as sondagens tem entre 22 e 25% dos votos – o primeiro-ministro José Sócrates tem contra-atacado, dizendo que o país precisa de um presidente que garanta a estabilidade.

Leque eleitoral

Além do Partido Socialista, Alegre recebeu o apoio do Bloco de Esquerda, um partido que se define como marxista e que reúne ex-trotsquistas e ex-maoístas. Enquanto um lado da campanha de Alegre ataca o governo, nos comícios aparecem ministros no palanque fazendo discursos.

A grande surpresa da campanha são as intenções de voto no independente Fernando Nobre, que sem uma máquina partidária poderá chegar a cerca de 10% do eleitorado. Médico de profissão, Nobre foi fundador da organização humanitária Assistência Médica Internacional, que atua em zonas de conflito e de catástrofes.

Os comunistas escolheram um candidato praticamente desconhecido, Francisco Lopes, a quem as sondagens atribuem 5 a 6% dos votos.

O socialista Defensor Moura, prefeito da cidade de Viana do Castelo, concorre sem o apoio de seu partido, e deve ficar entre 1,4 e 2% dos votos, se as pesquisas se confirmarem.

O sexto candidato é José Manuel Coelho, que se apresenta como representante do partido Nova Democracia, que apenas tem deputados no parlamento regional da Madeira. Com um discurso contra o sistema e tiradas irónicas, as sondagens indicam que terá cerca de 2% dos votos.

Ao contrário do Brasil, onde o presidente tem poderes executivos, em Portugal o presidente não tem poderes para influir no dia a dia do governo. O principal poder presidencial é o de dissolver o parlamento, o que pode fazer mesmo sem uma justificação aos eleitores.

Trata-se do único cargo em Portugal que tem eleição nominal direta – todos os outros são por votação em chapas, mesmo para as prefeituras.

Campanha

Durante a campanha, as intenções de voto no atual presidente diminuíram em cerca de 10%. Isso por causa do debate em torno da sua ligação ao caso do Banco Português de Negócios (BPN), que quebrou e foi nacionalizado, deixando para os portugueses uma conta de 5 bilhões de euros (mais de R$ 11 bilhões).

O presidente do banco foi secretário de Estado das finanças quando Cavaco foi primeiro-ministro, em 1991. O atual presidente adquiriu ações do banco a preços abaixo do mercado, tendo vendido as posições dois anos depois com lucros de 146%. A casa de férias de Cavaco Silva resulta de uma permuta com uma empresa ligada ao banco falido.

A discussão sobre o banco deixou de lado o debate sobre a situação do país e a crise da dívida. Segundo o economista João Cantiga Esteves, seria importante que o país começasse a abordar o que acontece na economia.

"O modelo econômico falhou. O Estado passou nos últimos 30 anos de 32% do PIB para mais de 50%. O problema é que o Estado não sabe onde gasta, existem 13.740 entidades e empresas públicas, das quais mais de dois terços não prestam contas. Se o país recorrer ao Fundo Europeu de Estabilização ou ao FMI, isso vai adiar o problema, mas não vai resolver", diz o analista.

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